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“Crónicas de Lisboa”: Quando a Natureza Se Zanga. Autor: Serafim Marques

“….o vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde quer ir…”- Evangelho S. João

Um dia, um jovem e o seu pai, caminhavam por um daqueles trilhos existentes nas serras e parques, por lazer, como faziam com regularidade, e foram surpreendidos por uma tempestade com relâmpagos, trovões, ventos fortes e chuva diluviana e granizo. O cenário era assustador e abrigados, como puderam, debaixo dum penedo daqueles que desafiam a gravidade, ficaram em silêncio meditativo, observando a força indomável da natureza, tal a violência com que atacava e vencia as árvores, algumas centenárias e de grande porte físico.

– Pai, para que servem as tempestades? – perguntou o jovem. Surpreendido pela pergunta do filho, o pai demorou algum tempo a responder, pois a questão era profunda e ele nunca tinha pensado nisso. Mas esta exigia resposta e o pai, homem que já testemunhara muitos atos violentos da mãe-natureza, respondeu-lhe: – Servem para testar a resiliência, a coragem e a força dos homens, bem como a resistência das suas infraestruturas e a organização geoeconómico/social. Quando são menos violentas, servem também para purificar e renovar a natureza, pois também nela só os mais fortes resistem. Já pensaste que o vento abana as árvores para que se libertem das folhas e dos ramos mortos, mas também é capaz de destruir as mais fortificadas construções de infraestruturas de regiões ou povoações! – Uhmm, sussurrou o filho. E o pai continuou: – No que diz respeito aos humanos, alguns resistem e ficam mais fortes, mas outros deixam-se abater e ficam revoltados contra todos e contra a própria mãe natureza, mas não pensam nos seus próprios erros como o desleixo e outros defeitos, daqueles cujo “mal só acontece aos outros” (sic), mas clamam por Santa Bárbara, durante a tempestade, e “depois da casa arrombada trancas na porta” ou nada fazem até a uma próxima tempestade. E o silêncio voltou à “gruta”, só quebrado pelo barulho da chuva que caía e do vento e das árvores que iam caindo, porque não resistiam à lei e força da natureza.

Com a bonança, retomaram o seu passeio/aventura e desembocaram numa imensidão do outro lado da serra que mais parecia um enorme cemitério de arvores queimadas, mas de pé, e um lamaçal negro com a mistura das cinzas dum grande incêndio do último Verão e do efeito das chuvadas caídas há poucas horas. Pai e filho entreolharam-se e o jovem voltou a perguntar: – Pai, ali atrás o palco ficou muito destruído, mas era verde e mais facilmente se regenerá, mas aqui o palco é duma tristeza maior, porque não ficou nada do verde que fora antes. Explica-me os porquês daquilo que observámos nestas poucas horas do nosso passeio e que desejávamos fosse o pleno usufruto da natureza em paz consigo própria. Estou triste, pai. – Sabes, filho, a natureza não se queixa do mal que os humanos lhe fazem, mas zanga-se e vinga-se. Ela ralha connosco, porque lhe vimos fazendo mal, desde há muitos anos, diria séculos, e as tempestades, nas suas variadas formas (tornados, tufões, depressões, incêndios, etc) são o eco da sua revolta e da expressão mais violenta que a natureza utiliza para nos castigar das nossas agressões.

Pai e filho continuaram o seu percurso, deixando para trás a serra, e regressaram à sua cidade. Depois do que vivenciaram na serra, percecionaram e entenderam melhor o cenário em que viviam na sua cidade e na imagem do rio ali ao lado de água escura que, em vez de peixes, levava todo o tipo de plástico a flutuar em direção ao mar, matando muitas espécies ou envenenando outras, incluindo a espécie humana através da cadeia alimentar. Nela puderam observar também a elevada poluição, não só por causa de várias fábricas existentes nos arredores, a enviarem para atmosfera toneladas e toneladas de fumos, mas também a quantidade de automóveis, autocarros e camiões, que entupiam as ruas e avenidas, projetando na atmosfera, um ar carregado de fumos tóxicos. As grandes urbes mundiais, conjuntamente com outras fontes de poluição, contribuem para as alterações climáticas e que aumentam a probabilidade da ocorrência de fenómenos extremos na natureza, provocando grandes calamidades, com prejuízo para todo o planeta Terra, com destaque para os “passageiros”, sim porque nós humanos (e todas as espécies vivas), habitamos este planeta, em média 81,5 anos (em Portugal) das nossas vidas, enquanto o Planeta Terra terá à volta de 4,54 mil milhões de anos…Dizem os especialistas que o aumento da energia acumulada na atmosfera, resultante das alterações climáticas, torna mais provável a ocorrência de tempestades, cada vez mais em número e com um índice de destruição brutal e em várias partes da Terra (continentes, países, etc). Nós, humanos e principalmente os governantes nacionais e mundiais, tardamos em entender que herdámos este “habitat” melhor do que o estamos a deixar aos nossos descendentes, porque a poluição é global e os seus impactos não têm fronteiras. Cada vez mais nos aproximamos da situação crítica para o nosso planeta. Não são os profetas que o dizem, mas sim os muitos cientistas credenciados. “Agir”, preventivamente, e “Reagir” quando o “Prevenir” não foi suficiente, mas os “donos do mundo” olham mais para o seu umbigo do que para esta situação crítica.

Quo Vadis Terra maravilhosa, dolorosamente ameaçada?

 

 

 

 

Serafim Marques

Economista (Reformado)

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