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Os piedosos. Autor: Fernando Roldão

Há pessoas muito sensíveis, que se preocupam com o bem-estar dos outros, fazendo parte do grupo dos humanistas piedosos.

Têm sempre uma palavra na ponta da língua para comentar, piedosamente, o sofrimento dos outros, mostrando a sua solidariedade para o mal que recai sobre os ombros alheios.

Há uma frase que o povo usa muito e que traduz bem o sentimento de pena que manifestam pela desgraça alheia, que é, nem mais nem menos do que com o mal dos outros posso eu bem.

Convém acrescentar a este texto uma explicação e que tem a ver com o facto de que não devemos generalizar, pois corremos o risco de estar a ser injusto com as excepções.

Dá para perceber que muitos dos pesarosos são actores, estilo carpideiras.

Alguns leitores poderão perguntar o que são carpideiras e passo a explicar.

Carpideira é uma “profissional” feminina, cujo trabalho consiste em chorar por um defunto, que nem conhecem, sem nenhuma ligação de amizade ou familiar.

Era firmado um acordo monetário, tipo contrato a recibos verdes, para que chorassem, com convicção e realismo, podendo, eventualmente, no final do pranto, vir a receber uma comissão extra ou uma carta de recomendação para o próximo funeral.

Convém esclarecer que as carpideiras eram todas do sexo feminino, pois aos homens era vedada esta tarefa, por se tratar de chefes de família ou lideres que não podiam demonstrar tristeza, emoção ou fraqueza.

Hoje as carpideiras mudaram de nome, passando a ser as piedosas, que não choram, mas transformam-se em seres cheios de emoções e solidárias com o mal dos outros.

Andamos bastante trocados nos valores que tradicionalmente, separam o real do virtual, misturam o mal com o bem, acabando com as fronteiras que separam os dois, tornando a nossa vivência turbulenta.

Instalou-se na sociedade uma forma de piedade que é perigosa para os valores da vida, dos direitos, liberdades e garantias, que devem ser as traves mestras de uma sociedade civilizada, que poderá tornar perigosa a nossa segurança no futuro.

Ouvimos constantemente notícias de actos tresloucados de pessoas que não passam disso mesmo.

A sociedade com tanta tecnologia, ainda não descobriu, ou não o quer fazer, métodos bem elaborados e modernos, para fazer uma análise da mente, sobretudo nas escolas, que estudem e acompanhem as crianças a fim de lhes preparar o futuro com mais segurança.

Actos brutais, sem nexo, gratuitos ou desfasados, acontecem todos os dias por esse mundo fora, mas os comodistas olham para o lado e assobiam, pois não é com eles.

Voltamos ao nosso rectângulo, encostado ao oceano, normalmente, calmo, sem muitas altercações e podemos verificar que as coisas estão a mudar mas só não vêm os cegos doutrinados.

Há dias uma notícia abalou o burgo e chocou a maioria da população, tal foi a barbárie usada nesse crime, que pôs fim a duas vidas, o que provavelmente irá acontecer a outras num futuro mais ou menos próximo.

Sempre aconteceram crimes, mais ou menos brutais, apesar de eu dizer, que qualquer crime é horrendo, logo passível de punição.

É aqui que entram as piedosas, que saltam para todo o lado, desculpando o criminoso, alegando que estava deprimido, traumatizado ou que viveu uma vida de miséria, fome ou maus tratos.

Esta piedade é “show off”, “mise en scéne”, para inglês ver ou então para dar nas vistas e assim mostrar aos outros que é uma alma piedosa, preocupada com a desgraça dos outros.

Este fenómeno não é assim tão raro como à partida podem pensar, pois as manifestações de solidariedade para com os prevaricadores estão a tornar-se virais e sabem porquê?

Fácil de concluir, porque nenhuma das vítimas era da família dos piedosos.

Não foi o irmão, o pai, o filho, o sobrinho, o namorado ou o marido que foi esfaqueado até à morte.

Estão a defender o lado errado, em vez de acusarem os governos, as seitas, os lóbis e similares que provocam toda esta barafunda e que transformam o nosso dia-a-dia num verdadeiro inferno.

Estes defensores criminais ou apaziguadores de intenções, já pensaram que todos aqueles que ficaram sem trabalho, sem empresas, sem familiares e sem amigos, se começassem a matar a torto e a direito, só porque tiveram uma vida desafortunada e foram apanhados no meio de um ciclone de mentiras, arrastados para um verdadeiro tsunami de desgraças.

A lei dos piedosos desculpava-os a todos e os crimes ficavam quase impunes, porque a culpa é de quem estava no sítio errado à hora imprópria.

Os defensores de criminosos, de vândalos, de violadores ou de pedófilos, são cúmplices, porque os crimes são para serem punidos sob o risco de a nossa sociedade se converter numa selva sem regras.

 

 

 

Autor: Fernando Roldão

Texto escrito pelo antigo acordo ortográfico

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