Home - Opinião - Pelourinho do Casal, Travancinha, Ervedal da Beira, Seia e o Penedo de João Brandão: Autor: João Manuel Pais Trabulo 

Pelourinho do Casal, Travancinha, Ervedal da Beira, Seia e o Penedo de João Brandão: Autor: João Manuel Pais Trabulo 

O lugar de Casal foi outrora um concelho com foral dado por D. Manuel I, em Lisboa, a 21 de novembro de 1514. Não se sabe a data exata da sua extinção, mas em novembro de 1836 já o Casal estava integrado na vila de Ervedal da Beira. Travancinha fez igualmente parte do concelho de Ervedal até 24 de outubro de 1855, data em que passou a integrar o de Seia, após a extinção daquele. Alguns autores afirmam que Sameice era a única freguesia constitutiva do concelho de Casal, para além da própria vila, mas outros traçam um mapa bastante mais alargado, do qual se infere serem várias as freguesias que o formavam: “Do concelho do Casal, apenas ficaram no concelho de Seia as freguesias de Sameice, Travancinha e Várzea de Meruge. Entretanto transferiram-se para o concelho de Oliveira do Hospital, Meruge e S. Paio de Codeço.

O concelho de Casal possuía câmara municipal, edifício ainda existente, tribunal e cadeia. Tinha juiz, procurador, escrivão e destacamento militar. Como que lembrando e atestando aqueles tempos de glória e de especiais prerrogativas, o pelourinho conseguiu sobreviver à voragem dos dias, sendo um dos poucos que, no concelho, se encontram ainda de pé.

Casal ainda conserva o seu pelourinho, construído na sequência do foral manuelino, mas aparentemente mais tardio, e que terá sido levantado diante da casa da antiga Comenda. Conta-se dele que era primitivamente de madeira, como aliás sucedia frequentemente ao longo da Idade Média, e que, após tentativa de roubo, foi substituído pelo modelo em cantaria.

Sobre o pelourinho do Casal, alguém escreveu: “O seu pelourinho era de madeira, e como Vila Nova se houvesse julgado com direito aos bens da casa arruinada pela política da época, como filho mais poderoso, veio buscá-lo. Carregou-o num carro de bois e ia-se embora com ele. Era no Verão: aquela gente dispersa pelos campos, tinha deixado o burgo deserto. A não ser a petizada que se divertia, todos trabalhavam deitando a água às hortas. Mas alguém que apareceu, lembrou-se de tocar os sinos a rebate e o povo acorreu pressuroso ao chamamento, em defesa do seu património artístico. Lá, já ao longe, quando o povo se juntou com alarido e pronto para castigar o desacato, houve pancadaria da rija, e os de Vila Nova voltaram derrotados, e para que não fosse possível repetir a proeza, trabalharam em bom granito da região um Pelourinho e ergueram-no em frente da casa da antiga Comenda”.

O pelourinho possui um soco de quatro degraus quadrangulares de aresta, sobre uma plataforma em pedra aparelhada. A coluna assenta diretamente sobre o último degrau, elevando-se em fuste liso e oitavado, resultante do chanfro das arestas de um pilar quadrado. Não existe capitel, mas apenas remate, constituído por um bloco prismático com faces decoradas por relevos heráldicos e ornamentais.

Em duas faces opostas destacam-se dois escudos com as armas nacionais pouco legíveis, e nas outras representam-se motivos geométricos por dois círculos unidos integrando no seu interior uma flor-de-lis estilizada.

Coroado por peça troncocónica, decorada com toros entrelaçados, já pouco nítidos, e encimada por peça hexagonal que constitui a base de pináculo incompleto.

Já no século XX, incompreensivelmente, o muro de uma casa anexa avançou sobre o soco do pelourinho, que ficou parcialmente integrado no mesmo.

O penedo de João Brandão…

Em Travancinha conta-se que no penedo junto à estrada Municipal, num cadeirão talhado na rocha se sentava o famoso João Brandão, uma figura popular conhecida como o terror das Beiras, à espera que suas vítimas passassem na estrada em frente, para as assaltar e saquear.

Nascido a 1 de Março de 1825, em Midões (Casal da Senhora), o seu nome completo era João Víctor da Silva Brandão, sendo filho de Manuel Brandão, ferreiro de profissão. O seu pai era o líder de um grupo de criminosos, quase todos da sua família, que faziam lutas de guerrilha na época de conflito entre liberais e absolutistas.

Durante décadas João Brandão praticou assassinatos, roubos e extorsões, foi preso diversas vezes, mas sempre liberto e ilibado dos crimes que lhe imputavam, devido à proteção de altas instâncias de cariz liberal a quem um criminoso disposto a tudo era muito útil. Por esta mesma razão, a sua família ascendeu socialmente, tendo inclusivamente João Brandão pertencido à Câmara de Midões entre 1849 e 1853.

O estabelecimento da paz e a centralização da administração política levaram à queda de João Brandão, tendo finalmente, em 1869, sido condenado no tribunal de Tábua ao degredo em África. No entanto, ali gozou de todas as regalias, onde criou uma próspera fábrica de aguardente.

Em Novembro de 1880, avisado de que o governador de Benguela pretendia eliminá-lo, refugiou-se no interior da província, onde acabou por ser assassinado a 17 desse mês, por desconhecidos.

No início do ano seguinte, dois militares foram enviados para procurar o cadáver. Sepultado no lugar da Caata, Bocoio, exumaram-se os restos, decapitou-se a cabeça e retiraram-se as vísceras. Uma análise legal em Benguela provou a morte por envenenamento. Estes restos foram enterrados anonimamente no cemitério local.

 

 

 

João Manuel Pais Trabulo 

 

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