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Seis meses depois de assumir a presidência da Junta, António Lopes faz o primeiro balanço do mandato e acredita que a água, as termas e a Serra da Estrela podem colocar a freguesia entre os principais destinos turísticos de montanha do país.
A conversa decorre junto à ribeira de Unhais da Serra, onde a água corre límpida entre margens que a Junta começou a limpar nos últimos meses. Ao fundo, a Serra da Estrela ainda mostra encostas despidas pelos incêndios recentes. O presidente da Junta, António Lopes, aponta para a linha de água, para o parque de caravanismo, para os locais onde imagina novos espelhos de água e para a montanha onde nascem as captações que abastecem a freguesia.
É a partir deste lugar que o antigo presidente da Assembleia Municipal de Oliveira do Hospital olha para o futuro da terra onde nasceu. Aos 75 anos, pouco mais de seis meses depois de assumir a presidência da Junta, acredita que Unhais da Serra pode reforçar a sua importância como destino turístico de montanha, apoiada na água, nas termas, na pesca à truta, na praia fluvial e nos equipamentos turísticos que já atraem visitantes. “Unhais da Serra tem condições únicas”, afirma.
“Não foi tudo desgraça”
O balanço deste início de mandato não é feito a preto e branco. António Lopes não esconde as dificuldades encontradas quando tomou posse, mas também faz questão de sublinhar aquilo que considera serem as oportunidades da freguesia.
“Não foi tudo desgraça. Também me deixaram algumas coisas boas”, reconhece.
A frase surge depois de falar nos problemas financeiros, na documentação contabilística em falta e nos entraves administrativos que diz ter encontrado. A dívida ronda os 250 mil euros, valor próximo da receita corrente anual da Junta, e o défice mensal situa-se, segundo o autarca, entre quatro e cinco mil euros.
Entre os problemas identificados estão também documentos contabilísticos e administrativos que, afirma, desapareceram. A situação, assegura, motivou participações ao Tribunal de Contas, à Inspecção-Geral de Finanças, à Direcção-Geral das Autarquias Locais e ao Ministério Público.
A ressalva ajuda a perceber o tom com que faz o balanço. António Lopes não ignora os problemas que encontrou, mas prefere falar daquilo que ainda pode mudar. Havia maquinaria, equipamentos e um projecto aprovado de 550 mil euros para requalificar a ribeira e o parque de caravanismo.
António Lopes chegou à presidência da Junta depois de trabalhar nas Minas da Panasqueira, passar pelo sindicalismo, transformar-se num empresário relevante e intervir na política autárquica de Oliveira do Hospital, onde foi duas vezes presidente da Assembleia Municipal. A experiência política, porém, não o livrou da surpresa.
“O que mais me impressionou foi a burocracia”, resume. Processos, candidaturas, documentos, contas e decisões administrativas ocupam hoje uma parte significativa dos dias. “Criticar é bastante mais fácil”, sorri.
A água como trunfo
Com sete funcionários, a Junta avançou para uma limpeza de fundo da freguesia, das ruas às margens da ribeira. Era o que podia fazer de imediato, mas também o primeiro passo para tornar visível aquilo que António Lopes considera uma das maiores riquezas de Unhais da Serra: a água.
É dela que a freguesia retira uma parte importante da sua singularidade. Segundo o autarca, Unhais da Serra é uma das poucas freguesias do país que gere directamente a própria rede de abastecimento, alimentada por seis captações na Serra da Estrela, todas em terrenos da Junta. Essa gestão garante uma receita média mensal de cerca de 7.500 euros.
Essa riqueza, porém, também ficou exposta aos incêndios recentes, que atingiram parte das infra-estruturas de abastecimento instaladas na serra. A recuperação, num investimento de cerca de 207 mil euros, está praticamente concluída e deverá permitir que a água volte a entrar na rede nos próximos dias, com um caudal estimado entre 40 e 50 litros por segundo.
António Lopes descreve-a como “água que dava para engarrafar”. Não a vê apenas como serviço público ou fonte de receita. Vê nela um dos recursos capazes de sustentar a ambição turística da freguesia.
Unhais da Serra não parte do zero. Tem uma forte tradição no sector e já teve mesmo um casino. Hoje mantém termas, um hotel de referência, restaurantes procurados por visitantes, praia fluvial e um parque de caravanismo que a Junta quer modernizar. O projecto aprovado de 550 mil euros prevê precisamente a requalificação da ribeira e daquele equipamento turístico, criando melhores condições para quem visita a freguesia e para quem ali vive.
Enquanto percorre as margens da ribeira, António Lopes vai apontando para os locais onde imagina novos espaços de permanência junto à água. Mas o que mais o entusiasma não são apenas as infra-estruturas. São também as trutas.
Nas águas frias e límpidas que descem da Serra da Estrela continuam a viver trutas em estado selvagem. António Lopes fala delas como um património que distingue Unhais da Serra de muitos outros destinos de montanha e acredita que a ribeira pode tornar-se um espaço de referência para a pesca desportiva.
O objectivo, diz, é aumentar o efectivo existente, eventualmente ajudando à alimentação das trutas, e criar condições para que a modalidade atraia visitantes ao longo do ano.
“Temos aqui bastante qualidade que os amantes da pesca não vão querer desperdiçar”, sublinha.
O IC6 e as prioridades que não mudam
Ao falar do futuro da freguesia surge também uma reivindicação antiga. António Lopes defende que a concretização do IC6 teria impacto directo no desenvolvimento desta parte da Serra da Estrela. Segundo o autarca, a nova ligação permitiria reduzir para cerca de dez minutos o trajecto entre Oliveira do Hospital e Unhais da Serra, facilitando a circulação de pessoas, aproximando mercados e aumentando a capacidade de atrair visitantes para a serra.
A crítica às contas públicas vem de longe e atravessa a ligação que António Lopes nunca perdeu a Oliveira do Hospital, onde presidiu duas vezes à Assembleia Municipal. Não é contra festas
populares nem contra o futebol que se insurge, insiste, mas contra a inversão de prioridades quando o dinheiro falta para aquilo que considera essencial.
Nos anos em que interveio na política oliveirense, recorda, contestou a afectação de cerca de dez por cento do orçamento municipal a festas e futebol e defendeu verbas para bolsas de estudo de estudantes carenciados e apoios à natalidade. É essa memória que convoca quando fala dos 34 alunos que, afirma, ficaram sem bolsa por falta de financiamento. “Mal vai um país que não cria condições de acesso ao ensino”, nota.
A propósito das dificuldades financeiras que diz ter encontrado em Unhais da Serra, refere ainda uma festa realizada no ano passado que, segundo afirma, custou cerca de 93 mil euros. O problema, sublinha, não é a festa em si, mas as dívidas que ficam por pagar e os serviços que ficam por garantir. “Quem está na política é para servir”, resume.
António Lopes garante que este será o último mandato da sua vida autárquica. Não pretende voltar a candidatar-se quando terminar este ciclo. Quer deixar as contas equilibradas, concluir os investimentos em curso e criar condições para que Unhais da Serra aproveite melhor os recursos que já possui.
A conversa termina junto à ribeira onde começou. A água continua a correr entre as margens recuperadas e a Serra da Estrela ergue-se ao fundo. António Lopes aponta para os locais onde imagina novos espelhos de água e zonas dedicadas à pesca desportiva. Seis meses depois de chegar à presidência da Junta, continua convencido de que uma parte importante do futuro de Unhais da Serra passa por aquilo que sempre esteve ali: a água que nasce na montanha e atravessa a vila.
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