“Ainda há censura nos tempos de hoje”

Temática sobre a Censura abriu Centro Interpretativo do Estado Novo em Santa Comba Dão. Ouvimos um dos  alunos que, em 1940,assistiu à inauguração da Escola Cantina Salazar: ”Éramos 5 e viemos com a farda da Mocidade Portuguesa”

“O objetivo desta exposição é mostrar como foi a censura do Estado Novo para percebermos melhor como é hoje”, refere José Pacheco Pereira, responsável pelo Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência que abriu ontem, dia 23, as suas portas na antiga Escola Cantina Oliveira Salazar, em Santa Comba Dão.

“Quem entra aqui não sai salazarista”, frisou-nos este historiador que cedeu parte do espólio da Associação Ephemera, de que é responsável, celebrando um protocolo com a autarquia de Santa Comba Dão. Propõe uma orientação centrada na investigação histórica, na documentação e na compreensão do Estado Novo, com atenção à resistência da ditadura e afastando qualquer propósito de enaltecer e vangloriar o antigo regime.

O Secretario e Estado da Cultura, Alberto Santos, presidiu à cerimónia de abertura, defendendo na sua alocução que estudar a “ditadura é uma responsabilidade da democracia”, mostrando-se satisfeito com a cooperação estabelecida entre a edilidade e a Associação Ephemera, “que definiu um propósito de investigação histórica e de autonomia científica”, contribuindo com “documentação, conhecimento e capacidade de programação”.

Refira-se a este respeito que o edifício integra uma biblioteca temática com um espaço para consulta, uma sala de exposição permanente com trabalhos de David Oliveira (artista autodidata na arte da medalhística e da escultura, falecido em 2014) e uma sala de aula da época, que Pacheco Pereira denominou como um dos símbolos da autoridade do então regime, mostrando como se aplicavam métodos repressivos para com os alunos mais recalcitrantes.

De acordo com  a autarca de Santa Comba Dão, Inês Matos, foi preciso que “a vontade política se sobrepusesse ao ruído” em torno do projeto e aos receios de que estaria a ser preparado um museu dedicado ao ditador.

“Não queremos nenhum local de culto. Queremos mostrar que é possível abrir-se um centro interpretativo desse período da história de forma isenta e imparcial”, garantiu na sua intervenção.

Em menos de um ano de mandato do atual executivo, a decisão foi tomada e executada, com trabalhos por administração direta, que implicaram um “esforço muito grande” dos funcionários da autarquia e que, segundo Inês Matos, “não terminam agora, porque este é um projeto que será dinâmico.”

“Não se quer um museu a Salazar, mas também não se quer um espaço onde se diga mal da figura principal. Nem uma coisa nem outra. Quer-se um espaço de debate, para todos estudarem, conhecerem, investigarem e debaterem. Quer-se um espaço aberto a todos”.

A autarca teve de intervir à entrada do edifício para acalmar os ânimos de alguns cidadãos que contestavam os objetivos do projeto, os quais foram impedidos de entrar. A autarca explicou-lhes que se tratava do dia da inauguração e que era apenas permitido o acesso a pessoas convidadas, explicando-lhes, contudo, que o Centro estaria aberto a toda a gente, de quarta-feira a sábado.

Miguel Lima, um desses contestatários, ligado ao Núcleo de Estudos Oliveira Salazar, referiu-nos que este Centro fora criado há mais 40 anos por pessoas ligadas ao Estado Novo, como foi o caso de Paulo Rodrigues, antigo secretário de Estado de Oliveira Salazar que o pensou criar, na sua terra, com o intuito de explicar às pessoas a história do regime.

“Só que não tínhamos dinheiro e solicitamos os bons ofícios da Câmara, que, nessa altura, não tinha capacidade financeira, nem vontade politica. Há alguns anos atrás, por iniciativa do advogado Alexandre Lafayette (que estava no grupo) avançou-se com o projeto, desburocratizando o processo, só que a edilidade nunca chegou a fazer um acordo por escrito com ele.”, explicou

“Foram, posteriormente, conseguidos pela autarquia fundos europeus no valor de 400 mil euros e a edilidade resolveu fazer uma alteração aos propósitos iniciais. Ou seja: o Centro vai funcionar como branqueamento daqueles que se opuseram ao regime e enegrecer o regime deposto no 25 de abril. Na 1ª República não havia censura, porque não falam nela”, acentuou, lembrando que “Pacheco Pereira foi membro do PCP, “mas nisso não se fala”.

Neste grupo, encontramos Feliciano Lima que em 1940 assistiu à abertura desta Escola/Cantina, fardado com o equipamento da Mocidade Portuguesa. ”Éramos cinco com a farda e o Salazar não esteve presente”, referiu-nos, exprimindo a sua satisfação pela abertura deste espaço. ”Ao menos vai trazer pessoas a Santa Comba Dão, mas que não venham  terroristas”.

Luís Nunes, vice-presidente da Câmara de Santa Comba Dão, disse-nos ser “saudável essa contestação, neste caso, da parte de contestatários mais ligados à direita conservadora, era expetável que surgisse essa oposição. É verdade que o projeto foi consensual da parte de todos os partidos, o que se pretendeu foi abrir este espaço que se carateriza pela sua independência e objetividade”, frisando que neste Centro ninguém vai encontrar nada que estimule saudosismos do passado.

O Centro Interpretativo do Estado Novo terá uma programação regular de exposições temáticas e de iniciativas de reflexão, como debates, mesas-redondas e conferências, de forma a incentivar os visitantes a regressarem frequentemente.

Fotos e texto: José Leite

LEIA TAMBÉM

Guarda: pais detidos por suspeitas de abusar sexualmente da filha menor

A Polícia Judiciária (PJ) deteve um casal, ambos com 32 anos e de nacionalidade estrangeira, …

Grupo Tavfer abriu primeira vinoteca própria em Pamplona

O Grupo Tavfer abriu ontem uma vinoteca em Pamplona, na região espanhola de Navarra, dedicada …

Sahifa Theme License is not validated, Go to the theme options page to validate the license, You need a single license for each domain name.