… uma ordem de trabalhos com apenas dois pontos. António Lopes reconheceu exiguidade e lembrou que a oposição também tem o dever de fazer propostas.
“O que diria António Lopes quando recebesse esta ordem de trabalhos?”. A questão lançada em tom irónico é da autoria do deputado do PSD, Rui Abrantes, que em reunião da última Assembleia Municipal teceu duras críticas à escassez de pontos na ordem de trabalhos daquele órgão autárquico.
“Espero que esta ordem de trabalhos não seja reflexo de missão cumprida”, continuou o social-democrata aludindo, assim, a declarações recentemente prestadas pelo presidente da Assembleia Municipal em entrevista a este diário digital.
Rui Abrantes foi ainda mais longe ao interpretar a exiguidade da ordem de trabalhos como sendo um “esvaziamento” da Assembleia Municipal que, como também referiu, está “a cair no erro” de apenas efetuar uma reação às notícias.
Numa intervenção dura, o jovem social democrata defendeu que a Assembleia Municipal se torne num “órgão proativo”, porque há muitos temas para discutir. “Porque não discutir as coisas? Isso é que é engrandecer o debate”, frisou.
Numa clara oposição à reunião de uma Assembleia convocada para analisar dois pontos na ordem de trabalhos, Abrantes informou da sua indisponibilidade para receber a senha de presença a que tem direito e desafiou a restante Assembleia a fazer o mesmo.
Aceitam-se propostas da oposição…
O presidente da Assembleia Municipal não tardou em responder ao deputado social-democrata, logo o informando de que “não é vedada à oposição a possibilidade de apresentar propostas”.
“Até hoje nunca me chegaram propostas da oposição”, esclareceu António Lopes, lembrando que no tempo em que era deputado “eram poucas as assembleias que não tinham pontos” propostos por si. Lopes reconheceu a escassez de pontos na ordem da última sexta feita – “eu também fiz essa leitura e achei que vínhamos para aqui gastar quatro mil Euros …” – mas deixou também claro que não é por fazer parte do poder, que deixa de ser incómodo.
“O presidente da Câmara Municipal não quer comprar um carro em condições e quando vai no meu sujeita-se a ouvir o que não gosta”, disse em tom de brincadeira.
O presidente da Assembleia desvalorizou ainda o facto de Abrantes abdicar da senha de presença, para lembrar que também ele, “autarca há muito tempo”, nunca fez uso das que tem direito.
Ainda em jeito de resposta às críticas do social-democrata, Lopes lamentou que a Assembleia “não tenha um debate mais crítico”. “Façam bem o vosso trabalho”, sugeriu.
A intervenção de Rui Abrantes também não caiu bem junto do socialista Carlos Maia que chegou a lamentar que “pessoas que durante anos abriram a boca uma ou duas vezes, sejam agora os primeiros a dizer que esta Assembleia Municipal é amorfa”. “Tarde estão a piar”, observou o deputado e presidente da Junta de Freguesia de Ervedal da Beira, informando Abrantes de que “tem que aprender muito com isto”.
Satisfeito com a resposta de António Lopes ao deputado social-democrata, o deputado da CDU João Dinis desvalorizou a crítica de Abrantes por reconhecer que “o período antes da ordem do dia sempre compensou a escassez na ordem de trabalhos”. O também autarca de Vila Franca da Beira referiu ainda, em matéria de senhas de presença, que metade do valor a que tem direito é canalizado para o seu partido.
Ainda do lado do PS, Rodrigues Gonçalves criticou Rui Abrantes pela apreciação negativa e recordou os tempos em que, em anteriores mandatos, os deputados que partilhavam a cor do executivo municipal, nada diziam. “Durante anos, o antigo presidente da Câmara Municipal tinha até que se defender sozinho, porque ninguém o defendia”, lembrou.
Deputados da CDU e PS abandonaram trabalhos
Pese embora as críticas à exiguidade de pontos na ordem de trabalhos, o que é facto é que a última Assembleia Municipal ficou marcada pelo elevado número de intervenções no período antes da ordem do dia. Entre críticas e contra-críticas mais ou menos demoradas, houve até deputados a que, o presidente da Assembleia Municipal, pelo adiantado da hora, não autorizou falar, chegando até a motivar a saída antecipada de João Dinis e Nuno Oliveira.
“Não foi isso que o senhor aprendeu num determinado partido onde o senhor andou”, reagiu o presidente da Junta de Freguesia de Vila Franca da Beira, insatisfeito por António Lopes ter aberto “exceção e bem” para uns e não o ter feito para com a sua pessoa.
“Os direitos são iguais para todos”, disse também o presidente da Junta de Oliveira do Hospital, Nuno Oliveira.
“Ainda não me esqueci do que aprendi”, disse, por sua vez, o presidente da Assembleia Municipal em resposta a João Dinis, informando ainda estar, apenas, a dar cumprimento ao regimento da Assembleia e que “foi aprovado por todos”.
“Mudem o regimento e estamos cá até de manhã”, continuou, notando que “todas as intervenções ultrapassaram os 10 e os 12 minutos”, quando se deveriam ficar pelos cinco minutos. “ “Isto tem que ter disciplina porque senão não nos entendemos”, concluiu numa altura em que, perto da uma da manhã, dava início à ordem de trabalhos.
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