A Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada (São Miguel, Açores) inaugurou, no passado mês de Julho, uma mostra documental intitulada “Impressões de Viagens”. Num dos expositores encontrava-se uma obra que me despertou de imediato o interesse: Narrativas Insulanas, de Sebastião Carlos da Costa Brandão de Albuquerque (1833-1927). Integrada na chamada literatura de viagens, foi publicada, em 2018, pela editora Letras Lavadas, contendo um proveitoso prefácio assinado por Avelino de Freitas de Meneses.
Sebastião de Albuquerque era licenciado em Direito, pela Universidade de Coimbra, e foi agraciado, em 1893, pelo rei D. Carlos com o título de “1.º Visconde do Ervedal da Beira” (concelho de Oliveira do Hospital). Em 1894, exerceu a sua profissão de juiz, durante aproximadamente três meses, em São Miguel, pelo que o livro atrás referido reflecte, sobretudo, as suas experiências insulares, que, segundo confessou, teria redigido para partilhar com a família, mas que acabaram mesmo por ser divulgadas, em formato de livro, logo em 1894.
Narrativas Insulanas é uma obra com cerca de 200 páginas salpicadas por inesperados, mas magníficos recortes poético-literários, que evidenciam uma significativa sensibilidade e sentido estético de um amante da natureza, que não se inibe, por exemplo, de criticar a prática existente à época em São Miguel de comer os canários (ob. cit., p. 174). Vale a pena acompanhar a pungente narração que Sebastião de Albuquerque nos legou a respeito da saída da Madeira, no navio “Funchal”, em direcção a Ponta Delgada: “Pouco a pouco os quadros vão-se fundindo, os coloridos vão morrendo na distância a que ficam, os primores da arte e a região das flores vão fugindo, confundem-se e desaparecem, e começa a acentuar-se a região mais rude das montanhas […]. Eu não posso nem sei exprimir a tristeza imensa, a angústia e o vago terror que de mim se apoderou ao perder de vista o último pedaço de terra, e ao ver-me cercado de trevas no meio do mar proceloso, onde o navio à mercê do vento e das vagas subia altas montanhas de água que lhe vinham ao encontro e descia profundos vales” (ob. cit., ps. 38 e 40). A leitura das Narrativas Insulanas representa, por conseguinte, uma rara oportunidade para recuar ao final do século XIX e “conhecer” um pouco melhor, por exemplo, as pessoas que ajudaram a erguer alguns dos santuários da ilha de São Miguel. Neste âmbito, escreveu Sebastião de Albuquerque a respeito do jardim António Borges, em Ponta Delgada: “Quem bate à porta do parque do Sr. António Borges, está longe de supor o paraíso que vai encontrar, e seja-me lícito dizer sem a menor sombra de censura que o seu parque é um templo de ouro finíssimo com portas de ferro grosseiro, um monte de pedras preciosas em cofre de baixa madeira, um quadro de Raphael em moldura de preço vulgar” (ob. cit., p. 89). Mais de um século volvido, estas palavras conservam uma espantosa actualidade, sendo que o jardim romântico António Borges constitui ainda um marco obrigatório para todos aqueles que pisam a ilha, sendo também significativo realçar que o seu acesso é gratuito e pode ser feito em qualquer dia da semana.
A (arriscada) viagem de Sebastião de Albuquerque entre Ponta Delgada e a Lagoa das Sete Cidades, com a subida das encostas já no dorso dos burros, bem como as 8 horas do percurso entre Ponta Delgada (cidade à época iluminada a gás) e as Furnas, a alusão ao “clima inconstante” que rapidamente escondia dos mirones a “Lagoa do Fogo”, a corrida ao telégrafo para enviar notícias à família que ficara no “Continente”, a descrição da formação, por volta de 1840, da enigmática caldeira de Pêro Botelho, nas Furnas, a retenção (confinamento forçado) dos passageiros do navio “Funchal”, em 1894, devido à cólera que grassava em Lisboa, as descrições da Coroação do Espírito Santo ou ainda das efemérides associadas às Festas do Senhor Santo Cristo não podem deixar de emocionar todos aqueles que conhecem a luxuriante e magnificente “Ilha Verde”, localizada no grupo oriental do Arquipélago dos Açores.
Eis agora um excerto da descrição que Sebastião de Albuquerque eternizou a respeito da sua chegada à Povoação, um dos locais míticos da ilha:
“Ao pôr-do-sol estávamos em frente de Povoação; foi ali onde os primeiros colonizadores da ilha aportaram, foi ali onde edificaram as suas primeiras habitações, donde se estenderam e ramificaram, e não pode por isso deixar de ocupar um lugar distinto na história dos Açores.
O local onde nos achamos e onde parou o carro chama-se a Lomba do Cavaleiro.
A Vila de Povoação acha-se repartida ou estendida em sete colinas ou lombas que vão em direção ao mar […]” (ob. cit., p. 125).
As palavras que o “1.º Visconde do Ervedal da Beira” nos legou na obra que inspira este breve artigo representam uma ponte transatlântica. Reencontrar inesperadamente este meu pretérito “conterrâneo”, quando se está a mais de 2000 quilómetros das raízes nativas, também me ajudou a matar saudades da Beira Alta. Assim, neste mês marcado pelo regresso e pela (tantas vezes, dramática) partida dos emigrantes portugueses espalhados um pouco pelo mundo inteiro, aqui fica a sugestão de leitura desta obra e o convite para que, sempre que possível, todos possamos viajar pelas intermináveis maravilhas de Portugal, sem esquecer ― que me perdoem a distinção ― as admiráveis 9 ilhas do Arquipélago dos Açores. Se o leitor visitar, em particular, São Miguel, Narrativas Insulanas revelar-se-á um guia digno de registo, mas para todos aqueles que não podem empreender essa viagem a leitura desta obra de Sebastião de Albuquerque será, desde logo, uma excelente alternativa, com inequívoco sabor a Almeida Garrett, Pêro Vaz de Caminha ou Montaigne. Aqui fica o desafio: já que vivemos num país que, salvo honrosas excepções, insiste em não profissionalizar os serviços culturais, pelo menos que cada português vá fazendo um esforço para conhecer e preservar aquilo que mais nos distingue…
Autor: Renato Nunes
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