Luís Vaz de Camões: Sua relação com a Inquisição foi o escapar por entre os pingos da chuva… Autor: João Dinis

No ambiente exacerbado de contra-reforma religiosa, e social também, coube a Camões ter de se haver com a Inquisição.  De facto, cedo entrou e foi mantido, como agora se diz, no “radar” da Inquisição em Portugal, em Ceuta e em Goa, e de novo em Portugal até ao fim da sua vida. E certamente muito porque foi hábil e inteligente, e também pobre, Camões não chegou a provar das agruras facínoras do Tribunal do Santo Ofício.

Mas a sua Obra foi sujeita a censura prévia como aconteceu designadamente com Os Lusíadas antes da sua publicação pioneira de 1572. Perante o censor religioso, oficial, encarregado de dar parecer prévio sobre Os Lusíadas, autorizando ou não a sua publicação impressa, muito provavelmente, Camões terá mesmo feito concessões – admitindo alterações – à primitiva edição, manuscrita que esta estivesse e chegado às mãos do inquisidor-censor.

Todavia, o que acabou por sair do prelo nessa (primeira) edição de 1572 de       Os Lusíadas, ainda assim contém muitos versos subversivos da moral e das normas canónicas impostas. Afinal, o “milagre” foi tudo isso ter passado aos olhos e critérios do tal censor inquisitorial! Enfim, desse ponto de vista, cabe-nos hoje “agradecer” a permissividade desse censor ou, também aqui, a capacidade de persuasão de Camões nos “debates” que deve ter havido entre ambos… Senão, que teria acontecido ao fabuloso e erótico “bacanal” tratado com talento eterno, com conhecimento da matéria lá tratada e até com algum humor, no célebre episódio da “Ilha dos Amores”?

E que teria acontecido ao próprio Camões se o mesmo censor levasse à letra aqueles versos do Canto X – Estrofe 80 -. “É Deus: mas o que é Deus. Ninguém o entende. Que a tanto o engenho humano não se estende”. Se o classificasse de “heresia”, Camões teria ido parar aos calabouços de tortura da Inquisição, bem piores do que aqueles outros calabouços que ele também “provou” em sua vida “pelo Mundo em pedaços repartida”.  Acho mesmo que o “parecer” elaborado pelo mesmo censor de Os Lusíadas em que ele declara poder ser publicada a Obra, constitui um (curto) tratado, bem construído nas suas premissas tendo exactamente em vista “justificar” a decisão favorável por ele encontrada, aliás, em que o censor também se “defende” a ele próprio perante a sua instituição/Inquisição… Não, não, ele não era um “brutinho” qualquer apesar de ser um censor… Ainda bem!  Posição contrária, essa sim à altura das malfeitorias da Inquisição, teve outro censor do “Tribunal do Santo Ofício” (Inquisição) de Coimbra que proibiu a leitura e a divulgação de Os Lusíadas, em 1640, a pretexto de comentários feitos em uma Edição dessa época escrita em Castelhano e patrocinada pele Coroa Espanhola. Ou seja, há quem defenda e parece-me que com razão que o contexto político (agudo) em Portugal a caminho da Restauração da Independência Nacional face a Castela (o processo revoltoso, expresso, veio a ter início em 1 de Dezembro, 1640) também terá influenciado a inquisitorial proibição.

Durante a vida de Camões, a Inquisição entrou em Portugal e foi entrando no Império. A “tarraxa” inquisitorial apertou duramente alguns dos seus contemporâneos, homens de grandes méritos entretanto reconhecidos.

Felizmente, Camões – que não era nem judeu nem cristão-novo – foi passando por entre as malhas físicas e ideológicas da Inquisição sem danos de maior. Ao menos por causa dessas não sofreu ele, para além de óbvios receios de amputações severas em sua Obra. Deve tê-la defendido com o amor e o brilhantismo de um Homem intelectualmente superior!

Salvé, Luís Vaz!

Agosto de 2026

 

 

Autor: João Dinis, Jano

 

 

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