Na semana em que se notícia um novo traçado para o IC6, acompanhado da promessa de concurso público para 2025, os habitantes de Oliveira do Hospital vivem certamente uma estranha sensação de déjà vu. Este anúncio ecoa ao longo dos anos, repetido, reciclado, mas nunca concretizado. Será que é agora?
A questão, no entanto, não se resume a quantos metros quadrados ou quilómetros este novo traçado irá ter, nem ao alinhamento com o Programa Rodoviário Nacional de 2000, nem quem o fez ou deixou de o fazer no seu tempo. O problema real está na confiança – nas promessas feitas e repetidamente quebradas, na “palavra dada, palavra honrada” que deveria ser a base da política. Porque, mais do que as fábulas que gostaríamos de contar ou os culpados que gostaríamos de apontar, o problema é a ausência de um verdadeiro compromisso político. Esta falta de compromisso tem minado a confiança da população e transformado o IC6 num símbolo da descrença nos agentes políticos, nas suas intenções e na sua idoneidade.
Cada promessa não cumprida é um golpe não apenas nas expectativas da população, mas na própria credibilidade política local e nacional, essa mesmo, que tem sido dia após dia lesada por todos aqueles que contribuem para um sistema político onde este modus operandi é um apanágio comum que não temos sabido combater e que apenas traz não só a polarização, como a descrença deste seio que outrora era visto como honrado, competente e beneficente para as populações.
O IC6 é o exemplo claro de uma promessa que, ao ser sucessivamente adiada, levanta dúvidas sobre a agenda e o calendário de quem governa – onde os faróis só parecem acender-se perto das eleições, quando a urgência de concretização coincide com a busca por votos.
O IC6, porém, não é apenas um projecto de interesse local para Oliveira do Hospital. Trata-se de uma infraestrutura de importância nacional, especialmente para o eixo da Beira-Serra, onde ele representa um progresso de coesão territorial e desenvolvimento para uma região há muito marginalizada no mapa das prioridades. A ligação ao Eixo Central da Beira-Serra beneficiaria não só esta área, mas reforçaria o equilíbrio territorial, garantindo mais acessibilidade, segurança e qualidade de vida. Traria mais serviços e mais negócios para quem vive e trabalha por cá.
Não obstante, mais que factos o que poderia ter sido feito para evitar o actual impasse? Além da clara vontade governamental, da pressão política de todos os partidos locais juntos daqueles que nos lideram deixo aqui o pensamento daquilo que também poderíamos (e podemos) ter desempenhado não apenas na cobrança da promessa do IC6, mas na organização de uma frente local forte e determinada, aqui, teria sido interessante a criação de grupos de trabalho e acompanhamento através da Assembleia Municipal, teria sido substanciado a elaboração de uma análise com dados, objectivos e absolutos, do impacto socioeconómico com o atraso do IC6, mas também verdadeiras parcerias intermunicipais com os concelhos vizinhos poderiam ter sido criadas para aumentar o peso da reivindicação, consolidando um apelo, a uma só voz, de toda a região.
Findo com um repto de menos ruído e mais acção, num jeito conclusivo e de um pensamento comum: O IC6 deveria ser defendido como uma prioridade transversal, uma causa regional acima das disputas partidárias. Todos os partidos, em especial aqueles que já fizeram parte do governo (sim, o meu CDS-PP também) poderiam ter sido mais incisivos em exigir a concretização do projecto e, ao mesmo tempo, em promover um compromisso claro de prazos e financiamento. Em vez de esperar pelas promessas em períodos eleitorais, todos os partidos deveriam unir-se numa agenda comum de desenvolvimento regional.
O IC6 não pode ser mais uma linha reciclada em promessas eleitorais. Oliveira do Hospital e os seus cidadãos merecem mais do que ecos vazios de intenções passadas. É chegada a hora de as palavras se transformarem em acção e de o IC6 deixar de ser uma miragem. Palavra dada deve ser palavra honrada – e, acima de tudo, cumprida
Aqui, no alto da Serra do Açor, no ponto mais elevado do distrito de Coimbra, não nos podemos resignar – mesmo que custe com tanta prometa adiada. Esta estrada é mais do que um acesso – é um caminho para o futuro da região e de Portugal.
No fundo: IC6. Outra vez? Será que é desta?
Espero que sim.
Autor: João Miguel Pais
– Secretário da Junta de Freguesia de Alvoco das Várzeas –
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