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A maçã beirã de “sabor único e que preserva a saúde”

Empresário Nuno Tavares Pereira (do Grupo Tavfer) produz 100 toneladas de uma maçã que só existe nas Beiras

A apanha da maçã de bravo Esmolfe, uma das poucas variedades tradicionais e regionais que sobreviveram à entrada da maçã estrangeira, é um processo algo delicado. José Manuel Antunes, de 67 anos, coordenador de cerca de duas dezenas de trabalhadores de apanha da maçã, explica-nos que estamos a lidar com um fruto que tem de ser apanhado com todo o cuidado.  “E quando se pega nela tem de se segurar e rodar. Não se pode puxar, porque as restantes maçãs acabam por cair e ficam marcadas. É preciso muito cuidado. Mesmo ao colocarem-se no palote”, conta, enquanto exemplifica. “Vê?”, diz quando colhe orgulhosamente dois exemplares, enquanto as restantes permanecem na árvore.

É o procedimento necessário para um fruto que, segundo os entendidos, tem características distintivas, incluindo sabor doce e  acido, aroma, textura que a tornam uma escolha única que devia ser valorizada. Os apreciadores asseguram que, além do seu sabor excepcional, a maçã de bravo esmolfe traz benefícios para a saúde. Este fruto é rico em vitaminas, minerais e antioxidantes, ajudando a fortalecer o sistema imunológico, sendo também dotada de propriedades fitoquímicas que ajudam o organismo humano a prevenir diversos tipos de cancros.

O empresário Nuno Tavares Pereira explica que, apesar de lhe serem reconhecidos estes atributos, esta maçã ainda não está devidamente valorizada no mercado. “Este foi um bom ano em termos de produção. Mas em termos comerciais continuamos a ser pagos pelo preço de há dez anos atrás”, refere, salientando que as maçãs têm dois tipos de mercado: o consumo directo, no qual as maçãs têm de obedecer a determinados critérios, como a dimensão e a ausência de marcas, e exportação para uma multinacional espanhola de concentrados de fruta. Esta indústria absorve, de resto, não só as maçãs de menor dimensão, mas também aquelas que há algum tempo se encontram no chão. “Estas são aquelas que a fábrica de concentrados mais aprecia, apesar do aspecto”, refere Nuno Tavares Pereira, sublinhando que o ideal era fazer a apanha em duas ou três fazes para permitir que algumas maçãs ganhassem dimensão. “Mas o preço a que nos é paga, faz com que esse método seja inviável economicamente”, conta.

Este produtor conta também que este mercado é ainda prejudicado pelos custos associados às deficientes acessibilidades da região. “Tenho de juntar as maçãs todas numa quinta para os camiões provenientes de Espanha carregarem. Eles não gostam da EN 17. Dizem o que nós sabemos: que a estrada é um perigo. Isto também compromete o nosso desenvolvimento”, frisa. “Quase que pagamos para produzir”, enfatiza aquele que é um dos maiores produtores de maçã de bravo esmolfe do país, colhendo anualmente cerca de 100 toneladas, em dois pomares com cerca de 8 hectares. Destas maçãs, 60 mil quilos são para consumo e 40 toneladas para concentrados.

“Este tipo de fruta devia ser protegido, não só porque é autóctone, mas pela sua qualidade. E não o é”, conta, sublinhando que seria um processo simples. “Bastava que as instituições do Estado, como escolas e hospitais, entre outras, incluíssem a maçã de bravo Esmolfe nas suas ementas. Só existe em Portugal e dentro de Portugal numa região muito restrita. Além do mais, o Estado estaria a promover uma alimentação saudável”, conta. Mostra-se, contudo, confiante que a maçã de bravo esmolfo vai ser valorizada. “É precisamente por isso que estamos a converter os nossos pomares para produzirem este tipo de maçã. A árvore produz menos, mas é uma qualidade diferenciada”, sublinha, mostrando-se muito critico em relação às políticas europeias sobre a agricultura.

“A Europa tem de decidir: ou produz qualidade ou esquece a produção e opta definitivamente por outros mercados, como África e outros, onde não há controlo de nada… de sanidade ou pesticidas, por exemplo. E as pessoas gostam de ir aos supermercados comprar esses produtos, mais baratos”, refere o empresário, sustentando que a “agricultura na Europa não funciona sem subsídios, de forma a equilibrar os preços dos produtos que vêm de outras origens”. “Quanto a mim é uma medida errada, porque, a União Europeia que se mostra tão exigente em determinados aspectos, deveria era taxar os produtos que nos chegam vindos do exterior e não andar nesta questão da subsidiodependência”, conclui.

Cultivada em quatro distritos…

Esta variedade regional de maçã, conhecida desde o séc. XVIII, terá tido origem na aldeia de Esmolfe (concelho de Penalva do Castelo) e terá sido obtida a partir de uma árvore proveniente de semente. Como os seus frutos são muito apreciados, obtiveram-se enxertos que disseminaram esta variedade por várias zonas de produção frutícola na Região da Beira Alta e em parte da Cova da Beira. A área geográfica de produção de Denominação de Origem Protegida (DOP) da Maçã Bravo de Esmolfe está, de resto, circunscrita aos concelhos de Aguiar da Beira, Celorico da Beira, Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Manteigas, Pinhel, Seia, Trancoso (distrito da Guarda); Covilhã, Belmonte, Fundão (distrito de Castelo Branco); Arganil, Tábua, Oliveira do Hospital (distrito de Coimbra); Tondela, Santa Comba Dão, Carregal do Sal, Nelas, Mangualde, Penalva do Castelo, Sátão, Aguiar da Beira, Viseu, S. Pedro do Sul, Vila Nova de Paiva, Castro Daire, Sernancelhe, Penedono, Moimenta da Beira, Tarouca, Lamego e Armamar (Distrito de Viseu).

 

 

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