A AD Nogueirense, emblema de Nogueira do Cravo, concelho de Oliveira do Hospital, regressa ao Campeonato de Portugal depois de se sagrar campeã distrital ainda antes do fim da prova. A subida resultou de uma ambição guardada dentro do grupo, enquanto o clube preparava a estrutura para uma divisão mais exigente. “Isto era um objectivo interno”, diz o presidente Márcio Henriques. “Fomos construindo aos poucos e, dentro do grupo, fomos cimentando essa ambição.”
A convicção ganhou força a 8 de Abril, em Taveiro, na 23.ª jornada, frente à Académica/SF. A AD Nogueirense venceu por 2-1 depois de jogar largos minutos em inferioridade, num jogo que o presidente recorda como decisivo. “Mostrámos aí que éramos uma equipa sólida e que dificilmente nos iam derrubar”, afirma.
A prudência que marcou o percurso até ao título passa agora para a preparação da próxima época. “O primeiro objectivo é obter a manutenção o mais depressa possível. Tudo o que vier depois será analisado durante o percurso”, diz Márcio Henriques.
A subida obriga a ajustamentos. O plantel será retocado, a organização do clube será chamada a outro patamar e o orçamento terá de crescer, sobretudo pela logística e pela organização dos jogos no Campeonato de Portugal. A direcção garante, porém, que não quer perder o controlo. “Vai ter de aumentar alguma coisa, sempre com rigor”, diz o presidente.
O Nogueirense não tem dívidas, paga “a tempo e horas” a atletas e funcionários, e tem património. Além do Estádio de Santo António, o clube possui um apartamento e o bar, uma das suas fontes de receita. “Sem as empresas, os amigos, os patrocinadores, a Junta de Freguesia e o município, não era possível estar aqui”, reconhece Márcio Henriques.
Essa combinação de equilíbrio financeiro, património próprio e apoio local ajuda a explicar a recusa de soluções que possam pôr em causa a identidade do clube. O presidente diz que já houve contactos de quem queria entrar com dinheiro, mas afasta esse caminho. “Enquanto eu aqui estiver, não abdico da identidade do clube por dinheiro. Nunca permitirei que o clube seja dominado por uma SAD”, afirma.
O apoio da comunidade foi uma das marcas da época. Em casa, a assistência média rondou as 300 a 350 pessoas, com alguns jogos a ultrapassarem esse número. Fora, os adeptos de Nogueira do Cravo também se fizeram sentir. “Havia quase sempre mais gente de Nogueira do que da equipa da casa”, recorda o presidente.
Muitos jogadores, mesmo não sendo da terra, acabam por se sentir parte dela. “Entram nas casas das pessoas, são convidados para jantar, para almoçar. Têm aqui uma afectividade que dificilmente encontram noutro lado.” O lema resume esse vínculo: “Quem vem a Nogueira nunca esquece Nogueira.”
Estádio e plantel em preparação
O Estádio de Santo António terá de acompanhar a nova etapa. A bancada, cuja cobertura voou em Março de 2025 durante a depressão Martinho, está em fase de projecto e recolha de orçamentos. O valor inicial rondava os 220 mil euros, mas a solução deverá ser revista para reduzir custos. “Queremos dar dignidade ao estádio e ao clube, e permitir que as pessoas tenham melhores condições para ver os jogos”, diz Márcio Henriques.
A obra deverá contar com apoio do município e da Federação Portuguesa de Futebol, embora o contributo federativo seja considerado reduzido. A direcção não acredita que os trabalhos estejam concluídos no início da próxima época. “É difícil estar pronta. Creio que poderá estar em execução”, admite.
No banco estará Filipe Salvado, que conduziu o Nogueirense à subida depois de regressar a uma casa que conhecia desde 2022/2023 e de onde tinha saído em Dezembro, por razões profissionais. “Agora veio terminar o trabalho”, brinca Márcio Henriques.
A carreira de jogador ficou para trás em 2016, por causa de lesões nos joelhos, e o banco surgiu dois anos depois, como adjunto. A ideia de jogo não cabe em rótulos. “Defendo o futebol que traz a vitória”, afirma Filipe Salvado. “Não sou um romântico. Olho para a minha equipa, mas também olho muito para o adversário. Se tiver de baixar linhas num jogo, baixo. Se tiver de jogar mais alto noutro, jogo. No fim, o que conta são os três pontos.”
A preparação da próxima época começou logo depois da conquista. Filipe Salvado admite que há jogadores que a estrutura pretende manter, por serem “uma garantia de qualidade” para o Campeonato de Portugal, mas não fecha a porta a reforços. “Haverá algumas alterações e haverá um acrescento de qualidade. O mais importante é recrutar jogadores de qualidade”, nota.
A subida chega antes de estar tudo resolvido, mas não apanha o clube parado. “Estamos a trabalhar nisso tudo”, diz Márcio Henriques. “Temos alvos identificados e vamos iniciar negociações com vários atletas.”
Juniores regressam à AD Nogueirense na nova época
O regresso da equipa de juniores será um dos passos mais importantes da AD Nogueirense na próxima época, por reforçar a ligação entre a formação e a equipa sénior. “Neste momento é o único escalão que nos falta, mas vamos colmatar essa lacuna na próxima época”, confirma o presidente Márcio Henriques.
A formação cresceu nos últimos três anos. Quando a actual direcção entrou, o clube tinha apenas traquinas e benjamins. Hoje, conta com duas equipas de petizes, duas de traquinas, benjamins, infantis, iniciados e juvenis. Entre a formação e os seniores, o clube movimenta cerca de 200 atletas. “Temos recebido jovens quase todos os dias. É sinal de que estamos a desenvolver um bom trabalho”, afirma o presidente.
O treinador Filipe Salvado também vê na formação uma parte essencial do futuro do clube, embora reconheça as dificuldades acrescidas de trabalhar no interior. “É muito difícil ter todos os jogadores com qualidade acentuada, mas o clube tem feito um excelente trabalho, através dos coordenadores e dos treinadores. A formação está a crescer e, com o sucesso da equipa sénior, crescerá ainda mais.”
Na equipa campeã havia cinco jogadores formados no clube, embora pertencentes a gerações anteriores. O regresso dos juniores deverá fortalecer essa ligação.
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