Home - Opinião - Girabolhos não salva o Mondego: é hora de pensar no território, não na energia. Autor: Nuno Pereira

Girabolhos não salva o Mondego: é hora de pensar no território, não na energia. Autor: Nuno Pereira

Não existem registos que nos possam acalmar relativamente às cheias do Baixo Mondego. Mas existem exemplos que se podem usar para, pelo menos, minimizar futuras tragédias. A bacia do Mondego é uma das mais importantes do país — e convém perceber porquê. É nela que descarrega a maior parte da água em forma de neve, porque os pontos mais altos da Serra da Estrela e até da Serra do Caramulo desaguam no Mondego.

O problema das cheias tem várias proveniências. Há o próprio desassoreamento do Mondego em Coimbra. Há a água do rio Ceira, que vem do lado da Serra da Estrela e da Serra do Açor, com apenas uma pequena barragem que mal consegue controlar caudais acumulados. Há a Barragem de Fagilde, que pura e simplesmente não funciona. E há, finalmente, a água que entra no Mondego depois da Barragem da Aguieira, vinda do rio Alva e da Ribeira da Caniça.

Ora, Girabolhos não resolve o problema do Baixo Mondego. O que fará será criar um microclima, e, sobretudo, um negócio de produção de energia. É este, de facto, um dos problemas da gestão das barragens: primeiro o interesse energético, só depois o interesse pelo território.

E soluções? Existem, claro que existem. E os cálculos estão feitos. Há décadas que se conhece o caminho: criar uma verdadeira bacia do Mondego que proteja populações e, simultaneamente, crie economia. Não é preciso inventar nada. Basta executar os planos existentes, alguns deles à espera de prática há quarenta anos.

Colocar a Barragem do Lapão em funcionamento. Colocar a Barragem de Fagilde a operar, com desassoreamento. Pequenas barragens ou mini-hídricas em Girabolhos. Melhorar a Barragem do Caldeirão e a da Senhora do Desterro. Mini-hídricas no Alva, como as das Botas e depois da Barragem das Fronhas. Requalificar a Barragem das Fronhas e desassorear. Pequenas mini-hídricas no Rio Cris. Diversas mini-hídricas no Ceira, antes de se juntar ao Mondego. Melhorar e executar a ligação do Ceira ao Zêzere. E, claro, obras no açude de Coimbra e no Baixo Mondego.

São estas medidas — todas elas — que resolveriam um problema complexo. Não uma barragem gigante em Girabolhos, que traria mais danos do que benefícios. Uma barragem que alteraria o microclima, prejudicaria a agricultura, a viticultura, a fruticultura, e até a queda de neve na Serra da Estrela. Girabolhos, assim concebida, seria uma catástrofe disfarçada de progresso.

Não se trata de demonizar a mini-hídrica de Girabolhos; ela deve existir. Mas não a megabarragem. E, em paralelo, não podemos deixar de manter e melhorar barragens desgastadas como a Lagoa Comprida, Vale do Rossim e Lagoacho, integrando-as com as mini-hídricas a jusante.

O que é necessário, finalmente, é passar à prática. Mas com critério e com todos sentados à mesa. Porque dentro de dias estaremos no Verão, e então a preocupação serão os incêndios, que entopem rios com cinzas e árvores queimadas. A água não cai do céu como por milagre. A água planta-se.

 

 

Autor: Nuno Pereira

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