Começo por lembrar que Eusébio sempre afirmou ser “um jogador da bola”… E célebre ficou aquele desabafo de Toni ao exclamar: “Deixem o Mantorras jogar!”…
Eu cá digo e repito: “Treinadores, deixem o talento jogar! Não matem o jogador da bola que há dentro de uma criança!”.
Nunca esqueci uma “boca” que ouvi a um “destreina” de uma “escolinha” de crianças-futebolistas que, a dada altura, berrou para um menino que não teria mais de nove anitos e jogava num treino. Assim: “Mais agressividade! Mais agressividade!”. Mas que grande besta! Não pude e não posso deixar de pensar dele… Deveria ter dito com calma: “Vamos, rapaz, chega tu primeiro à bola!”, o que, aliás, deve ser a primeira preocupação de qualquer jogador numa disputa a dois… ou a três ou quatro…
Acontece que estamos num contexto em que o futebol tende a ser negócio e indústria. Com milhões e milhões de euros e petrodólares a fazerem a bola correr e pinchar, com os e as mais habilitados(as) fisicamente a correrem atrás dela e a pontapeá-la. Os clubes, e desde logo os “grandes”, precisam de “fabricar” jogadores de futebol para os vender… para o negócio. Procura-se o resultado e não o espectáculo emotivo. E para tal se prepara tudo ao redor, desde as mais tenras idades dos jogadores-protagonistas.
Constrói-se o jogador e o jogo para assegurar uma maior previsibilidade nos prélios. E recorre-se às teses pseudo-científicas para enclausurar a análise e a síntese mais liberais dos acontecimentos dentro do campo e nas imediações deste. Submetem-se os jovens e, a seguir, os adultos jovens a programas de computador, como se se devesse reduzir o ser humano a folhas de cálculo, com muitos gráficos e com diagnósticos e correspondentes registos e projecções.
Conheço quem diga, e com saber de experiência feito, que, em alta competição, são os gabinetes médicos das equipas que, actualmente, “mandam” nos treinadores e nas equipas, tal é a monitorização físico-técnica dos futebolistas e as prescrições inerentes. E isto sem entrar no domínio, atirado de propósito “apenas” para o nível da especulação, do “doping” (estimulantes). Sim, digo eu, que não se aguenta jogar ao ritmo intenso e intensivo de dois jogos por semana, semanas a fio, não se aguenta isso a beber água com açúcar e farinha, vamos dizer assim… Na realidade, os grandes laboratórios podem produzir substâncias estimulantes, tipo “recuperadores” (acelerados) do cansaço corporal e mental, a um ritmo superior ao ritmo dos métodos de despiste, ou seja, geram-se substâncias sempre “à frente”, até uns dois anos de avanço sobre o “índex” das substâncias já proibidas! Também isto é feito e ministrado em atletas com acompanhamento mais ou menos médico-científico para não “queimar” à vista e nas análises do costume e, assim, se evitarem as más consequências disciplinares…
Futebol moderno faz-se a correr para a frente e para trás, olhando para o lado…
Atenção que eu não tenho ilusões mais ou menos utópicas acerca do sentido das mudanças introduzidas no jogo/futebol e suas consequências práticas.
Como tenho consciencializado, nestes últimos anos, o jogador constrói-se na base de muito treino específico e especializado. Quase como se fossem feitos em laboratório, seja a céu aberto, seja em pavilhões. Entretanto, o improviso, os reflexos instantâneos, o prazer em jogar à bola, são “castrados” para que a evolução do atleta seja uniforme, embora progressiva, rumo à intensidade na prática em causa, ainda que dual, ainda que sintética, entre a parte de dominância mais física e a parte de dominância mais mental e emocional. Tende-se para a robotização dos humanos que singram para ser futebolistas.
E assim se “mata”, quase fatalmente, o jogador da bola que há em cada criança e se amputa o futebol da sua componente mais lúdica e mesmo mais espectacular, aquela vertente que o inefável Jorge Jesus chama de “nota artística”.
As actuais “escolas” e “escolinhas” de jogadores de futebol querem fazer futebolistas robotizados. Já tenho dito que eu não desdenho, antes pelo contrário, da máquina do Toni Kroos, mas gosto mais de ver o Ronaldinho Gaúcho e nem sequer estou a fazer comparações, porque eles não são comparáveis, de tão diferentes. Transmito o meu gosto pessoal e também sei que “isto” não vai lá pelos meus gostos…
Treinar crianças e pré-adolescentes no jogo da bola implica, por exemplo, pôr dois, um frente ao outro, mandar uma bola para o meio deles e incentivá-los: “Vamos lá a fintar um ao outro”. E passar a duas equipas de dois jogadores cada uma, frente a frente, do género. E, para aperfeiçoar a eficácia, é de aperfeiçoar a jogada controlada mais simples de todas, aquela jogada do “dois-um”, como se lhe chamava, com passe a um companheiro que esteja à nossa esquerda ou à nossa direita, arranque acelerado e recepção da bola à frente, passada por esse mesmo companheiro. É eficaz e simples, repete-se. E, para avançar na complexidade da diferença em função da posição pré-definida em campo para cada um dos jogadores, é de jogar 15 ou 20 minutos por treino, fazendo alternar a posição-base de cada jogador presente em cada uma de duas equipas. É de colocar e alternar defesas em avançados e avançados em defesas, para treinar a ambivalência individual. E, numa fase posterior, é de tentar o esquema com três mini-equipas ao mesmo tempo. Alcança-se boa capacidade de reacção controlada e de eficaz entreajuda em movimento, com ou sem bola. Sim, que o ritmo deve treinar-se ao ritmo, e à intensidade, em que se joga o desafio. E sobra o “treino-conjunto” para aperfeiçoar tudo isso. E já chegámos à alta competição, em que as equipas mais ganhadoras são aquelas que mais dinheiro também têm para gastar. A maior parte delas “trabalha a petróleo”…
Autor: João Dinis, Jano
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