Defensor do aproveitamento e exploração dos recursos hídricos, de um investimento forte na captação e armazenamento de água, António Fonseca, 41 anos, é gestor de uma das maiores explorações agro-pecuárias do concelho de Celorico da Beira, conhecida como 4 Quintas. Este administrador aconselha uma atenção especial das autoridades locais para os recursos naturais como o rio Mondego e para as zonas de captação de água na montanha. Empreendimentos que podem beneficiar do próximo quadro comunitário de apoio. António Fonseca considera, porém, que os políticos muitas vezes fecham os olhos a estas oportunidades que podiam atenuar os problemas que actualmente se fazem sentir com a seca.
“Sem água não há agricultura e nós vemo-la passar por aqui e ir embora através do rio Mondego ou perdida na montanha quando podia ser colocada ao serviço de muitos hectares de regadio. É algo que custa a quem ama a agricultura, particularmente quando atravessamos um período de seca, algo que aparentemente se deve agravar com o passar dos anos”, conta.
A captação e armazenamento de água, de resto, que tem sido uma forte aposta nesta exploração, contando com estações de bombagem, charcas de elevada capacidade, seis furos e dois poços de grande espaço” para uma área de 410 hectares, 300 dos quais vocacionados para o pastoreio e produção de alimentação, como forragens. Uma aposta que tem mitigado os actuais problemas de falta de chuva e a alimentação de 1500 ovelhas adultas e cerca de duas centenas de crias para reposição. Ainda assim, a seca deixa as suas mazelas. “Houve níveis de humidade em Setembro e Outubro muito baixos. As culturas não germinaram. Temos pouca pastagem e estamos a doseá-la de forma a salvaguardar a alimentação para todos os animais. Já estamos a consumir as forragens de reserva para o Verão que nos permitem normalmente auto-suficiência”, conta.
As bombas também já há muito começaram a trabalhar. Para regar. Algo inusitado em pleno Inverno. “Não estamos a trabalhar com o mesmo volume, nem com o mesmo número de bombas do Verão, mas andamos muito próximo. Estamos a fazer rega de cerca de 20 hectares diários para garantir alimentação para as próximas semanas”, explica, avisando que logo aqui os custos começam a fazer-se sentir de forma significativa. “As bombas necessitam de electricidade que não está propriamente barata”, atira, frisando que, ainda assim, esta exploração não tem falta de água graças ao investimento ao longo dos anos.
Os custos, porém, não se ficam pela água. A espiral de despesas não pára de aumentar. Desde os fertilizantes aos combustíveis. “Os custos vão ser acrescidos, porque não vamos ter as colheitas necessárias e poderemos ter que comprar. E nem sabemos de quanto será porque está tudo muito volátil e o nosso mercado de abastecimento de forragens, fenos e palhas é Espanha que vive uma situação semelhante à nossa. É muito natural que os preços subam e muito”, avisa, defendendo da parte do Governo medidas estruturais e não subsídios conjunturais. “O que queremos é medidas de fundo que nos permitam competir com os agricultores de outros países. Mas isso é impossível quando, por exemplo, temos a energia muito mais cara, tal como os restantes factores de produção. É preciso uma visão abrangente sobre o sector”, sublinha.
A seca está também a diminuir a produção de leite, embora, este gestor assegure, que no caso das 4 Quintas, um empreendimento que conta também com turismo de natureza e olivais, não tenha sido demasiado significativo. “Nas ovelhas, costuma dizer-se que o leite entra pela boca, ou seja, se não comem não podem produzir. Nós tentamos compensar. É natural com o doseamento da alimentação, sem lhes faltar com o necessário, a produção não pode ser igual. A quebra ainda assim não é demasiado significativa, porque compensamos com outras formas a alimentação. Vamos é ter custos acrescidos”, explica, adiantando que, ao contrário daquilo que aconteceu em algumas explorações, nunca ponderou diminuir o efectivo. “Seria uma decisão de desespero. Não posso garantir que não se faça, mas não nos passou pela cabeça, até porque esta exploração está desenhada e estruturada economicamente para um determinado número de efectivos. Os investimentos que temos feito foi sempre no sentido de ampliar o rebanho, onde o trabalho de recria é um factor importante para seleccionarmos os animais de acordo com os nossos critérios”, salienta.
A seca só acentua as ideias que tem defendido desde os tempos em que foi eleito municipal. O facto da
água do rio Mondego não ser aproveitada é algo que não o deixa descansado. “O concelho de Celorico da Beira é atravessado em largos quilómetros pelo maior rio nascido em Portugal e, ao longo das últimas décadas, temos olhado pouco para ele. Limitamo-nos a aproveitar a água para abastecer a população, quando se deveria pensar no turismo, na produção de energia e no regadio. Podia-se criar capacidade de armazenamento e irrigar largas dezenas de hectares extremamente férteis naquelas margens. Como está actualmente, só ajuda quem está mesmo perto, mas se os investimentos tivessem sido feitos podia auxiliar muitos outros agricultores”, acusa.
Outra das suas batalhas passa por armazenar água proveniente da montanha, um projecto que já esteve nos planos da autarquia que há cerca de duas décadas chegou mesmo a adquirir terrenos para fazer captação de água. O plano, porém, parece ter caído no esquecimento. “Temos toda aquela zona de montanha, da barragem se salgueirais, que é muito rica em água. Seria o local onde se poderia fazer um investimento sério para se colocarem os recursos hídricos daquela zona em centenas de hectares. Com a vantagem de que a bombagem seria a custo zero, uma vez que a água vinha por gravidade. É que estamos a falar da zona mais alta do concelho”, defende, apelando, mais uma vez, aos políticos que tenham consciência de que “sem água não há agricultura”. “Que utilizem o quadro comunitário de apoio que vem aí e que tem uma forte componente para a captação e armazenamento de água”, diz, referindo que “as autarquias e restantes instituições têm de aproveitar esta oportunidade”.
“O queijo Serra da Estrela está condenado se não forem tomadas medidas radicais”
O empreendimento 4 Quintas há muito que deixou de produzir queijo. Passou a vender o leite para a indústria de lacticínios. Uma opção de gestão. António Fonseca, porém, não tem dúvidas que a manter-se tudo como está actualmente, o queijo Serra da Estrela está “condenado” e aponta vários factores que, no seu entender, vão conduzir a esse desfecho. Fala no envelhecimento dos pastores, no desaparecimento da ovelha bordaleira e churra mondegueira, na ausência de queijeiras e a carência de políticas estruturais.
“Temos a maior parte pastores com uma faixa etária muito elevada e se nada for feito dentro de muito pouco tempo não vamos ter nem festa, nem queijo”, conta, apontando como solução aquilo que foi feito noutros países há muitos anos. “Em França, há cerca de 150 anos, havia 300, 400 produtores ou 600 produtores e todos eles faziam queijo, cada um defendendo o seu produto. Não tinha escala e o negócio definhava. Alguém se lembrou que a solução passava pela agrupamento em cooperativas. Foi o que aconteceu e foram relançadas algumas marcas de queijo hoje conhecidas a nível internacional”, explica, enfatizando que o modelo pode e deve ser replicado em Portugal, podendo contar com o apoio das autarquias que, no seu entender se perdem demasiado nas festas anuais. “Não há nenhum produtor de queijo daqui, seja certificado ou não, que precise destas feiras para vender queijo. As autarquias locais poderiam juntar-se e fazer mais pelo produto e pelos produtores”, atira.
“Se temos menos ovelhas, menos pastores e muito menos queijeiras, é claro que algo terá de ser feito. E em minha opinião passa pela união dos produtores e municípios, criando cooperativas que recolham o leite, fabriquem o queijo e defendam a comercialização de uma marca forte”, assegura, frisando que esta opção trabalho dos ombros dos pastores, abrindo espaço para algum tempo livre, tornando a actividade mais atractiva e lucrativa para os jovens. Seria a forma de atrair jovens.
Sublinha ainda que muita da produção neste momento é sustada por leite proveniente de fora da Serra da Estrela. “Hoje, se não houvesse a entrada do leite espanhol na região teríamos centenas de pessoas desempregadas e, por estranho que possa parecer, o nosso leite valeria muito menos”, concluiu…
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