António Madeira recuperou vinhas antigas entre Seia e Gouveia e o seu vinho conquistou reconhecimento internacional

António Madeira recupera vinhas antigas na Serra da Estrela e conquista reconhecimento internacional

O produtor de Santa Marinha, no concelho de Seia, recuperou parcelas abandonadas, preserva castas antigas e exporta os seus vinhos para 25 a 30 países. Os Granitos 2023 recebeu 100 pontos de James Suckling.

Os 100 pontos de James Suckling chegaram quando António Madeira estava a colocar no lagar a colheita de 2026. A nota máxima foi atribuída a Os Granitos 2023, um vinho feito a partir de vinhas velhas de Santa Marinha, no concelho de Seia, e de parcelas que foi recuperando nas aldeias vizinhas, já pela encosta da Serra da Estrela, algumas no concelho de Gouveia. É neste território de altitude, de solos graníticos e pequenas parcelas que se estendem entre os dois concelhos que António Madeira construiu o seu projecto, com vinhos cujos preços variam entre os 16 e os 80 euros por garrafa.

A distinção deu ainda mais visibilidade a um produtor que já vende os seus vinhos para 25 a 30 países, apesar da dimensão reduzida do projecto. São cerca de sete hectares e meio de vinhas, trabalhados por sete pessoas, para uma produção anual que oscila entre 20 mil e 27 mil garrafas.

Num produtor convencional, diz António Madeira, uma equipa desta dimensão pode trabalhar 40 ou 50 hectares. Nas suas parcelas, muitas das videiras são antigas, as castas estão misturadas e as linhas são estreitas. A produção é reduzida e a mecanização é difícil ou impossível. Três cavalos ajudam a fazer o trabalho.

De vinhas abandonadas a um património de castas antigas

Muitas das vinhas que António Madeira trabalha estavam a ser abandonadas quando começou a procurá-las. Os proprietários envelheciam, deixavam de ter capacidade para as cultivar e, muitas vezes, os filhos tinham saído das aldeias ou não queriam continuar a actividade.

O produtor estima que cerca de 90% das antigas vinhas da zona tenham desaparecido nos últimos 30 anos. “É uma pena porque, com elas, desaparece um património genético de variedades de castas e, dentro de cada casta, uma variedade de clones”, conta.

Nas vinhas que ainda existem encontrou cerca de 50 castas, aproximadamente 30 tintas e 20 brancas, algumas em vias de extinção. Baga, Jaen e Tinta Amarela são as três castas tintas dominantes, representando cerca de 70% das plantas tintas destas vinhas velhas.

A Centenária é um exemplo dessa diversidade. A vinha ocupa apenas 2000 metros quadrados, mas reúne cerca de 45 castas e tem videiras com aproximadamente 130 anos. A produção ronda as mil garrafas. Parte da madeira das videiras foi levada para uma instituição para ser preservada, segundo António Madeira.

A Vinha da Serra, outro dos vinhos de parcela do produtor, nasce numa vinha velha situada na aldeia dos Vales, entre os 600 e os 700 metros de altitude. Fica cerca de 100 metros acima de outras parcelas e dá origem, na descrição de Madeira, a um vinho “muito elegante, muito aéreo”.

Cartografar as vinhas com o saber das aldeias

A procura de vinhas antigas levou António Madeira a falar com os agricultores mais velhos das aldeias. Conheciam os terrenos pela experiência e sabiam quais eram os melhores lugares para plantar vinha. “Aquele sítio sempre foi bom, aquele não”, recorda.

Madeira foi reunindo essa informação e procurou “cartografar cada aldeia”. Inspirou-se, em parte, no trabalho dos monges cistercienses que contribuíram para o conhecimento e a diferenciação das parcelas de vinha da Borgonha, em França. À sua escala, tentou fazer algo semelhante nas aldeias dos avós e nas povoações vizinhas, aproveitando o conhecimento que ainda existia.

“Procurei cartografar os terrenos com a ajuda do saber dos populares”, sublinha.

Esse levantamento ajudou-o a conhecer melhor o território e a escolher as parcelas onde queria trabalhar. Muitas pertenciam a pessoas que já não tinham condições para as cultivar. António Madeira propôs acordos que permitiam aos proprietários continuar a receber uma renda, ter as vinhas tratadas e ceder-lhe a possibilidade de as trabalhar.

Hoje, é proprietário de algumas parcelas, mas a maioria das vinhas é arrendada ou cedida. Foi assim que passou de zero hectares para cerca de sete hectares e meio.

De Paris para Santa Marinha

A ligação à terra não era, contudo, uma ideia profissional quando vivia em Paris. António Madeira nasceu e cresceu na capital francesa, filho de pais de Santa Marinha, no concelho de Seia. Estudou engenharia e trabalhou durante cerca de 15 anos em logística, organização industrial e cadeias de abastecimento.

Tinha 26 anos quando começou a interessar-se por vinho. Uma empresa onde trabalhava organizava provas mensais para os empregados e foi aí que provou vinhos que lhe pareceram “poesia ali à solta”. Até então, não gostava de vinho. O pai bebia às refeições um Côtes du Rhône barato e ele não via grande interesse na bebida.

“Mas a partir daquele momento o vinho tornou-se um hobby. Depois, uma possibilidade.” Em 2010, aos 32 anos, começou a fazer vinho. Não tinha vinhas nem adega, mas tinha algumas ideias, energia e dinheiro poupado durante a carreira. Sabia também que, se quisesse viver em Santa Marinha, teria de criar o próprio posto de trabalho.

“Hoje há trabalho remoto, mas naquela altura seria impossível trabalhar aqui como engenheiro”, explica.

A decisão não foi tomada com grande margem de segurança. “Quando comecei, pensava que tinha dois por cento de hipótese de fazer qualquer coisa”, diz. Se tivesse colocado a mesma energia na carreira profissional, acrescenta, provavelmente seria hoje dirigente de um grande grupo.

A primeira vinha que recuperou estava há três anos sem ser podada. Tomou conta dela em 2010 e, nessa primeira vindima, colheu apenas 80 quilos de uvas. O primeiro vinho, Vinhas Velhas Tinto 2011, foi produzido em pequena escala. Desde então, o projecto cresceu até às 20 mil a 27 mil garrafas que produz actualmente.

“São estilos diferentes, nem melhores nem piores”

A escolha do Dão não nasceu apenas da ligação familiar. Quando começou a estudar o vinho português, na primeira década dos anos 2000, António Madeira encontrou uma região com uma longa história, mas que lhe parecia esquecida. Provou grandes vinhos do Dão dos anos 1960 que, meio século depois, continuavam magníficos. Conheceu Álvaro de Castro, da Quinta da Pellada, numa aldeia vizinha, e começou a perceber que o potencial que procurava estava também no território.

Madeira fala de Seia, Gouveia e das aldeias da encosta da Serra da Estrela, onde as vinhas apresentam características diferentes. A altitude, o clima e os solos graníticos ajudam, na sua perspectiva, a criar vinhos mais frescos, com mais acidez natural, elegância e leveza, mas também com corpo e estrutura.

“Se compararmos com outra zona do Dão, por exemplo, a zona de Silgueiros, aí sentimos mais calor. As próprias vinhas são mais precoces, a vindima é mais cedo e, quando provamos os vinhos, são um pouco mais redondos, um pouco mais quentes, digamos assim, a nível aromático. São estilos diferentes. Não estou a dizer que são melhores ou piores, mas há características diferentes e, para alguém que gosta de vinho, é interessante perceber as variações consoante as zonas”, conta.

Também na vinha procura respeitar as características de cada parcela. Alimenta o solo com estrume, procurando manter a actividade dos microrganismos e das micorrizas. Nas vinhas velhas, onde as máquinas não conseguem entrar, recorre aos três cavalos. Na adega, as fermentações são feitas com leveduras indígenas.

Manter este tipo de trabalho é cada vez mais difícil, numa altura em que escasseia a mão-de-obra agrícola. António Madeira admite que terá de procurar formas de mecanizar algumas operações. As vinhas velhas produzem menos uva e exigem muito trabalho manual.

É também por isso que considera os vinhos do Dão baratos quando comparados com outros que, na sua perspectiva, têm qualidade semelhante. Em regiões francesas ou italianas com maior reconhecimento, diz, um vinho equivalente pode custar cinco ou dez vezes mais.

Para António Madeira, falta ao Dão reconhecimento internacional suficiente para que a qualidade dos vinhos se traduza no valor que considera possível. Num restaurante de Nova Iorque ou de Tóquio, diz, ainda não é natural que alguém pense: “Hoje apetece-me beber um vinho português, hoje apetece-me beber um Dão”. “E temos potencial para que isso venha a acontecer”, salienta.

Aos 48 anos, continua a trabalhar uma área que, pela dimensão, seria pequena para um produtor convencional: sete pessoas para sete hectares e meio, três cavalos onde o tractor não entra e vinhas velhas que produzem pouco e exigem muito trabalho. A produção anual situa-se entre as 20 mil e as 27 mil garrafas.

“O trabalho que nós fazemos tem um custo enorme”, conclui.

 

Fotos: Facebook de António Madeira

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