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“Crónicas de Lisboa”: Era Abril, o mês dos Cravos, do “Abril em Portugal”. Autor: Serafim Marques

A minha geração, a masculina, porque “as mulheres não iam à tropa”, tinha como destino, quase certo, porque havia sempre alguém que arranjava uma “maleita”, suportada numa cunha ou numa forma corruptiva para um atestado médico, prestar o serviço militar obrigatório, isto é, “servir a pátria”, mesmo que para tal “oferecesse a vida” na defesa da honra dela, a pátria ou dos governantes do regime? Mas também havia muitos “mancebos”, mais “intelectualizados” ou acobardados, alguns feitos “heróis” depois do 25 de Abril, que fugiam para Paris, para Argel, etc., deixando aos outros a obrigação de “darem o corpo ao manifesto” ou pagando com a vida essa “entrega à pátria”, mesmo que ingenuamente. Passe-se por Belém, em Lisboa, e pare-se junto ao monumento aos mortos ali existente e atente-se na lista dos portugueses, incluindo os “portugueses africanos”, que morreram nesse período de mais duma década. Era o tempo da guerra colonial, isto é, da luta do “Portugal europeu” contra os movimentos independentistas das colónias. Para todas, era necessário enviar tropas que lutassem e defendessem a integridade dum Portugal uno e indivisível, porque os governantes e os políticos da época não souberam ou não quiseram “ler a história” e antecipar o futuro, preferindo agarrar-se ao passado.

As consequências foram trágicas para milhares de angolanos, moçambicanos, guineenses e portugueses (deste Portugal europeu e dos residentes nessas ex-colónias). Foram os milhares de mortos, em ambas as frentes de guerra, militares e civis, nativos ou colonos, mas também os milhares provocados pelas guerras civis que se sucederam após as independências mal conduzidas pelos políticos, de cá e de lá, alguns com grandes responsabilidades político-ideológicas.

 Nas negociações com os representantes dos movimentos de libertação, os partidarismos e a “ideologia soviética” sobrepuseram-se ao pragmatismo e ao verdadeiro interesse dos cidadãos. As consequências foram trágicas, quer para os nativos quer para todos aqueles que ali se tinham fixado como colonos e que, quase na totalidade, tiveram de abandonar, muitos apenas com a roupa que traziam no corpo.

A Portugal chegaram algumas centenas de milhares de “retornados”, que obrigaram o país a um esforço de (re)integração nunca visto na sua longa história de nação. Malquistos no início, os “retornados” acabaram por representar uma injecção de sangue novo na sociedade portuguesa e, embora muitos preferissem depois emigrar para outras paragens, a maioria integrou-se na sociedade portuguesa e contribuiu para um Portugal mais europeu.

Mas a razão que me levou a “pegar na caneta”, neste Abril, desde há mais de quatro anos, de muitas guerras, que nos afectam directamente, embora sem mortos e destruições na Europa (excluindo a vítima Ucrânia), foi recontar “a história da minha ida à tropa”, que não a “ida à guerra”, como ironizava o saudoso Raul Solnado, porque escrever sobre as causas e as consequências da “Revolução de Abril” é obra para especialistas que eu não sou.

Então, era uma vez, como começavam todas as histórias, um jovem que foi incorporado no serviço militar obrigatório em Outubro de 1971, com 21 anos, porque, naquele tempo, íamos a “sortes”, isto é, à inspecção militar no ano em que fazíamos 20 anos e, se ficássemos apurados, seríamos incorporados no exército no ano seguinte, mas divididos por quatro períodos de incorporação na recruta de três meses, a que se seguia o período de formação nas inúmeras especialidades que o exército tinha, para assim poder ser autossuficiente, quer nas frentes de combate quer na retaguarda, incluindo a própria formação dos militares.

Frequentado o segundo ciclo, a obtenção da especialidade na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, e colocado numa das dezenas de estabelecimentos militares, vulgo quartéis, espalhados por todo o Portugal (continental, ilhas e colónias, ali com um sistema semelhante para os nativos não aderentes aos movimentos de guerrilha), era esperar pela mobilização para a guerra colonial, seguindo então incorporados numa unidade militar completa (batalhão ou companhia), onde seriam cumpridos dois anos, findos os quais cessava a prestação do serviço militar obrigatório.

Após a recruta nas Caldas da Rainha e da formação da especialidade em Santarém, fui colocado numa unidade do Porto (RC 6), já como graduado na etapa do posto de furriel miliciano. Pessoalmente, tinha a “garantia” de que iria para a guerra, mas a tal mobilização não surgiu logo na primeira vaga dos colegas do meu curso, para mim, ao contrário dos meus cerca de 36 colegas do “curso”, dum total de 56.

Foi a minha primeira vitória, mas, a partir daí, passei a viver numa enorme ansiedade, porque não sabia quando chegaria a minha vez de marchar para uma das frentes de combate e, ao tempo de serviço daqui, acresceriam sempre os dois anos em África.

O tempo foi passando e comecei a saber que na lista de mobilizáveis da minha especialidade e categoria militar já constavam outros mais novos e a requisição era feita pela ordem de incorporação mais recente e, nesta, pela ordem inversa da classificação no respectivo curso/especialidade.

Contudo, por cá, a vida não era um mar de rosas, porque muitas eram as tarefas e as exigências da “máquina militar”, por exemplo, formação e segurança e defesa militar das unidades e das fronteiras, porque, apesar de Portugal estar inserido na Europa em paz, havia os riscos de sabotagens dentro ou fora das unidades militares, que foram acontecendo, mas cujas notícias não passavam na censura, e que tinham graves consequências em todos os envolvidos, por acção ou omissão, perpetradas por forças políticas da extrema-esquerda.

Poderiam acontecer invasões clandestinas pelas fronteiras terrestres. Por exemplo, nas últimas eleições antes do 25 de Abril, ocorridas no domingo, 28 de Outubro de 1973, havia indícios de que poderiam ocorrer invasões pelas fronteiras do nordeste do país e a mim e à minha equipa coube uma tarefa específica nesse fim-de-semana: reforçar o aquartelamento de Chaves, porque a PIDE tinha informação de que por ali poderiam entrar “desestabilizadores” do regime vigente, com sabotagens, que já iam acontecendo no país.

O 16 de Março, conhecido como a “revolta das Caldas”, foi um prenúncio e as “sementes” do 25 de Abril, e passei-o 24 horas dentro do quartel, no Porto, em prevenção. Esse acontecimento começou a abrir-nos os olhos, nós, jovens apolíticos.

Apesar daquele acontecimento, a vida militar no Continente decorria dentro duma aparente normalidade, embora com medidas de segurança mais rigorosas.

Assim, fiz parte da equipa (três graduados milicianos) representativa do RC6 no campeonato militar regional de orientação que decorreu na zona militar de Lamego, no dia 24 de Abril de 1974.

E regressei ao Porto cerca da meia-noite, extremamente cansado, porque dura tinha sido a prova de orientação. As medalhas da prova foram entregues no Regimento de Comandos, na cidade de Lamego, onde se notava um certo nervosismo em muitos graduados, prenúncio do que se seguiria já nessa noite.

Deitei-me e adormeci que nem uma pedra, mas, a meio da noite, já no dia 25, fui acordado pelo “toque a formar” do regimento e recebi ordem de levantamento duma espingarda G3 e respectivas munições. Coloquei-a debaixo da cama e só acordei a meio da manhã com o ruído das manifestações populares na rua em frente ao quartel, pois o meu quarto ficava a poucos metros do gradeamento com a rua.

Comecei então a tomar conhecimento e consciência do que estava a ocorrer e fomos informados que o RC6 tinha aderido ao “Movimento dos Capitães”, mas que estava de reserva e prevenção para o que “desse e viesse”. Desempenhou pequenos “papéis no filme da Revolução”, mesmo em fase de rescaldo, até porque o grande teatro estava localizado em Lisboa.

Pessoalmente, destaco o papel que me coube em comandar uma pequena equipa para segurança às instalações da Legião Portuguesa do Porto, onde tudo tinha sido destruído pelas “tropas invasoras”, depois da fuga dos legionários. Senti uma certa tristeza com aquele cenário de destruição, mas é assim nas revoltas.

Depois, foi esperar até Outubro de 1974 para ficar livre do cumprimento do serviço militar obrigatório e regressar à vida civil e ao emprego na empresa que tinha deixado em Out71 e cujo regresso estava protegido pela lei.

Foram três anos da minha vida, muito intensos e que não foram uma “perda” total, porque contribuíram, e muito, para a minha formação de homem.

Aquela foi apenas uma etapa da minha vida e que continuou, sempre como trabalhador-estudante (dos 15 aos 32 anos), já no ensino universitário público, pois em Out71 tinha apenas como formação escolar o Curso Comercial.

O “25 de Abril” fui-o vivendo sempre duma forma independente e com a minha própria interpretação económica, política e social, até hoje.

Autor: Serafim Marques, Economista (Reformado)

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