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ESTGOH: talentos sem garantia de futuro. Autora: Bárbara Coquim Serra*

Esta semana abriram as candidaturas ao ensino superior. Para milhares de jovens em todo o país, é o início de um caminho com impactos duradouros na sua vida pessoal e profissional. Também para o Interior, este momento deveria ser uma oportunidade: captar estudantes, gerar movimento económico e formar quadros que respondam às necessidades concretas dos territórios. Oliveira do Hospital tem uma Escola Superior. Tem uma oferta formativa ligada às realidades da região. Mas não consegue fixar nem atrair os jovens.

A Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital que disponibiliza anualmente um conjunto significativo de vagas e cursos superiores orientados, em grande medida, para áreas estratégicas da nossa realidade territorial. No entanto, apesar desta presença institucional e da relevância inegável da sua oferta formativa, a verdade é que Oliveira do Hospital continua a não ser, para a maioria dos estudantes, uma escolha de primeira linha e, para os que por cá ingressam, raramente se converte num lugar de permanência.

A ESTGOH tem vindo a oferecer, ano após ano, cursos superiores nas áreas da contabilidade, das tecnologias de informação, do turismo, da gestão do território, entre outras, com evidente pertinência face ao perfil económico e produtivo da região. Estas formações superiores, alinhadas com as necessidades do tecido empresarial e com os desafios do Interior, poderiam constituir uma alavanca decisiva para o desenvolvimento sustentável do concelho, ao reforçarem a qualificação dos recursos humanos locais e ao promoverem a fixação de jovens quadros num território que tem vindo a sofrer de forma especialmente acentuada os efeitos da desertificação e do envelhecimento. No entanto, essa potencialidade permanece em larga medida desaproveitada.

A Escola Superior existe, mas está isolada. Produz conhecimento, mas não gera envolvimento. Forma estudantes, mas não cria raízes. A realidade é que Oliveira do Hospital, enquanto cidade, não consegue ainda constituir-se como um verdadeiro espaço dinâmico e atrativo  que seja capaz de integrar, valorizar e reter os jovens que aqui chegam com o propósito de estudar.

Falta vida estudantil, falta uma cidade capaz de respirar juventude. Falta acesso à saúde. Falta uma rede de transportes e de apoio a quem estuda. Também os espaços de lazer e convívio são praticamente inexistentes, e os horários comerciais são excessivamente reduzidos para sustentar uma verdadeira vida estudantil.

É verdade que se encontra em construção uma residência para estudantes, investimento há muito reclamado e necessário. No entanto a existência de alojamento não resolve, por si só, o problema de fundo. Se à sua volta não existir um ecossistema urbano vivo, funcional e atrativo, capaz de oferecer a quem ali habita condições reais para estudar, viver e participar na comunidade, será mais um equipamento com impacto limitado.

Ainda assim, a Escola subsiste e forma jovens altamente qualificados graças ao empenho e à resiliência das suas direções, que, ano após ano, têm lutado para manter a relevância institucional e científica da ESTGOH no panorama regional e nacional. Têm resistido às limitações impostas pela falta de meios,  de condições infraestruturais, de estratégia e de apoio externo, e procurado afirmar a Escola como espaço de conhecimento, de ligação ao território e de resposta aos desafios que se colocam.

Contudo, o problema da falta de articulação entre educação, juventude e território não se limita ao ensino superior. Também o ensino profissional, cuja relevância é imensa e  com forte expressão no concelho através do AEOH e da EPTOLIVA, enfrenta desafios estruturais que continuam por resolver. Os cursos profissionais existentes garantem uma formação técnica de alta qualidade, com elevada taxa de conclusão e reconhecimento no mercado de trabalho. No entanto, continuam a funcionar de forma desligada do tecido empresarial local (à margem dos estágios obrigatórios de conclusão dos cursos) e sem uma estratégia integrada de valorização e empregabilidade no próprio concelho.

Falta um verdadeiro plano de ligação entre as escolas profissionais e as empresas do concelho. Faltam estágios localmente estruturados, protocolos efetivos de inserção no mercado de trabalho e uma política clara de retenção de talento.

Mas para tal é urgente um plano realista de atração de empresas. Porque não basta formar jovens com talento e competências: é preciso garantir que, uma vez formados, esses jovens tenham onde trabalhar, onde evoluir e onde construir uma vida com dignidade. Sem empresas, não há emprego. Sem emprego, não há fixação. E sem fixação, o investimento em educação corre o risco de ser apenas mais uma peça na longa cadeia da exportação de recursos humanos de Oliveira do Hospital para o resto do país.

No meio de tudo isto, é de reconhecer e saudar as direções escolares que lutam pela qualidade do ensino, os professores que se dedicam à formação dos jovens ou os estudantes que, apesar de tudo, escolhem ou permanecem no concelho . Porque a responsabilidade de transformar a educação num verdadeiro pilar de desenvolvimento local é, acima de tudo, política. E é essa responsabilidade que tem falhado.

Formar jovens no Interior não é um ato meramente técnico. É uma escolha política de afirmação territorial. E essa escolha exige visão, compromisso e coragem. Até que ela seja feita, continuaremos a ver passar, todos os anos, centenas de estudantes por Oliveira do Hospital e continuaremos a vê-los partir, sem que tenhamos sabido, ou querido, ficar com eles.

 

 

Autora: Bárbara Coquim Serra*

* Jurista e deputada da coligação PSD/CDS-PP

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