No dia que Portugal evoca os 38 anos do 25 de Abril de 1974, de Oliveira do Hospital partiu a oposição ao que já é entendido como um ataque a uma das conquistas de Abril, o reforço do poder local e que está consagrado na constituição.
“Está hoje em marcha uma reforma administrativa do território que extingue uma série de freguesias e da qual discordamos visceralmente, por nos parecer injusta, mal feita e inútil”, afirmou esta manhã o presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital quando participava a sessão comemorativa do 25 de Abril e onde assegurou não estar disponível para aceder a uma lei em que não acredita.
“Não somos obrigados a dizer sim àquilo em que não acreditamos, e não acreditamos nesta lei”, vincou José carlos Alexandrino, que se revelou disposto “a lutar contra ela até às últimas consequências”. O autarca referia-se assim, em particular “ao momento crítico” por que passa o poder local em termos de autonomia e que, entende como mais um caso em que “os direitos constitucionais são postos em causa”.
“É tempo de perguntarmos se os valores do 25 de abril continuam a ter sentido”, chegou a observar o autarca que se recusa a perder a esperança – “um homem sem esperança é um homem morto”, observou – por considerar que os valores do 25 de Abril se mantêm atuais e que por isso obrigam à sua defesa.
Na sessão que hoje deu eco às várias forças políticas com expressão na Assembleia Municipal, o autarca oliveirense elencou as conquistas do 25 de Abril e as melhorias que as mesmas proporcionaram às populações em termos de qualidade de vida. Porém, Alexandrino também alertou para o facto de o concelho não ser uma “ilha” e de por isso não escapar aos males que afetam o país. O autarca referiu-se à situação económica dos portugueses que se tem vindo a agudizar e ao crescente número de desempregados e que, em Oliveira do Hospital já ultrapassou as mil pessoas.
“Este é um drama que atinge, sobretudo, os mais jovens, que lutam por uma oportunidade de inserção na vida ativa, e que poucos conseguem alcançar”, constata o presidente, notando a urgência de crescimento da economia e de incentivos à criação de emprego. Neste domínio, Alexandrino não deixou de valorizar os empresário locais “que têm lutado e conseguido enfrentar as dificuldades destes tempos duros e difíceis”.
“São um conjunto de resistentes, que mesmo operando num território por vezes hostil, onde as vias de comunicação ainda não correspondem às necessidades da sua atividade e onde os IC ainda não chegam, continuam a fazer tudo para manter as suas empresas vivas”, observou o autarca que, apesar das críticas garantiu não esmorecer no apoio social que a autarquia tem prestado junto de quem mais precisa.
“Se a utilidade da política não for a de servir as pessoas, para que serve a política?”, chegou a questionar o presidente, numa sessão que à entrada e saída ficou marcada com a entoação do hino nacional – pelo Coral de Sant’ Ana e o Choral Poliphónico do Alva – contou a presença da campeã mundial de atletismo Aurora Cunha.
“A consciência das dificuldades só nos pode dar força e ânimo para inverter o rumo dos acontecimentos”
A tentativa de eliminação de cerca de 1500 freguesias foi igualmente objeto de reparo por parte do presidente da Assembleia Municipal, que elencou um conjunto de outras conquistas de Abril que estão a ser colocadas em causa. “À medida que vemos sendo comprometidas as conquistas de Abril é que nos vamos apercebendo do quanto devemos aos capitães de Abril”, referiu António Lopes que não tem certezas acerca do “futuro do país enquanto coletivo”.
Referindo em concreto a incerteza que paira sobre o serviço de proteção social da segurança social, o presidente da Assembleia Municipal oliveirense apontou o dedo a “políticas erradas que comprometem” o futuro dos portugueses, sobre os quais já pairam “dias difíceis”. Na sessão evocativa à revolução dos cravos, Lopes disse não bastar recordar, pelo que apelou à “mobilização” e “espírito de sacrifício” de todos para se inverter o momento atual.
“A consciência das dificuldades só nos pode dar força e ânimo para inverter o rumo dos acontecimentos”, sublinhou, desafiando ainda a um olhar sobre “a negação da participação nas cerimónias nacionais”. “Tirem desse gesto as devidas ilações”, frisou.
“Embuste” e “roubo” foram termos usados pelo presidente da Junta de Freguesia de Vila Franca da Beira, eleito pela CDU, e deputado na Assembleia Municipal. João Dinis referia-se, em concreto, à intervenção estrangeira que está a ser feita em Portugal e que está obrigar os portugueses a sacrifícios cada vez maiores.
“Como é possível sair da crise, se todos os dias se provoca mais crise económica e financeira?”, questionou Dinis, certo de que as atuais políticas vão conduzir a um “desastre nacional”.
Já conhecido pela sua forte oposição às famílias “donas de Portugal” que vão alternando lugares entre a banca, governo e as grandes empresas, João Dinis avisou que o “povo que fez o 25 de Abril” não vai permitir este estado de coisas, pelo que não tem dúvidas de que “está acelerado o processo para um ajuste de contas”.
Luísa Vales, deputada municipal pelo movimento independente “Oliveira do Hospital Sempre” destacou o facto de os direitos conquistados em Abril não serem transversais ao comum dos portugueses. “Existem pessoas em situação de grande vulnerabilidade e de exclusão social”, verificou, notando que a atual crise económica agravou o desemprego. Situações que para a eleita pelo movimento independente são preocupantes e que ganham contornos maiores, quando se tomam em linha de conta dados relativos à emigração dos jovens e à situação de endividamento e sobre endividamento que afeta muitas famílias. No entanto, foi sobre os idosos que Luísa Vales centrou grande parte da sua intervenção, convidando a uma reflexão sobre o envelhecimento demográfico e todos os fatores que lhe estão associados.
Líder da bancada social-democrata na Assembleia Municipal, João Esteves invocou à cerimónia desta manhã a figura do falecido Sá Carneiro a quem reconheceu “capacidade de visão e de previsão”. E, sem deixar de recordar os valores que estiveram na base da criação o PSD, Esteves notou que, “num cenário em que impera a conceção economicista”, é hora de “os partidos com responsabilidade corresponderem à difícil tarefa, que obriga a que se encontre uma sociedade mais justa, solidária e fraterna”. “O PSD saberá assumir as suas responsabilidades”, assegurou.
À semelhança do que os elementos das restantes forças políticas fizeram, também Rodrigues Gonçalves recuou no tempo para elencar as conquistas – destacou o benefício da entrada de Portugal no espaço europeu – e agora verificar as perdas. “É por tudo isto que incomoda ver caminho que hoje Portugal está a seguir e com o qual só os especuladores financeiros rejubilam”, frisou o eleito socialista que se revelou contra a intenção de extinção dos quatro feriados que só conduzirão à “destruição de 98 mil postos de trabalho” e “redução do poder de compra da população”. Rodrigues Gonçalves pegou ainda naquelas que são as previsões do FMI e segundo as quais Portugal “vai continuar com altas taxas de desemprego”, para questionar o motivo pelo qual não se mudam as políticas.
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