As sucessivas ondas de calor que atingiram o país nas últimas semanas já deixaram marcas em várias explorações agrícolas. Na área agrícola do Grupo Tavfer, que produz azeite, vinhos, maçã e frutos vermelhos, os efeitos começam a sentir-se sobretudo nas culturas frutícolas, onde parte da produção perdeu qualidade e outra dificilmente chegará ao mercado.
Para Nuno Tavares Pereira, empresário e responsável pela área agrícola daquele grupo empresarial, os agricultores estão hoje mais preparados para enfrentar períodos prolongados de calor, mas as alterações climáticas obrigam a um esforço crescente de adaptação.
“Acredito que, em média, só com as ondas de calor se venham a perder cerca de 30 a 40 por cento da produção na área das frutas e legumes”, conta, numa altura em que o país se prepara para enfrentar mais uma semana com temperaturas elevadas.
Os prejuízos, explica, resultam tanto da quebra da produção como da perda de qualidade dos frutos.
“Nas pereiras, nas macieiras, nos mirtilos, nas framboesas e nas amoras há muita fruta que ficou queimada pelo sol e já não tem qualquer valor comercial”, frisa, salientando que mesmo os frutos que permanecem nas árvores acabam por sofrer alterações. “O fruto deixa de ter um desenvolvimento normal. Com temperaturas muito elevadas acelera a maturação, depois abranda quando arrefece e volta a arrancar. Isso acaba por afectar a estrutura e até a acidez.”
Também a vinha não escapa às consequências das temperaturas extremas. “Cerca de 20 a 30 por cento dos cachos vão queimar. Quando chegar a altura da vindima já estão em passa e nem sequer serão colhidos”.
Água tornou-se prioridade
Para minimizar os efeitos das temperaturas elevadas, o Grupo Tavfer reforçou a rega e investiu no armazenamento de água. “Regamos mais vezes ao dia, muito cedo e ao final da tarde. Durante as horas de maior calor a planta já não consegue aproveitar a água da mesma forma”.
Em estufas são utilizadas redes de sombra e sistemas de arrefecimento para reduzir a temperatura. “Hoje a água é o principal factor de produção. Temos charcas e depósitos, mas precisamos de aumentar ainda mais essa capacidade”.
Apesar desses investimentos, admite que existe preocupação caso o Verão continue a ser marcado por novas vagas de calor. “Se tivermos mais duas ou três ondas de calor vai ser difícil muitas plantas resistirem, porque simplesmente não haverá água suficiente”.
Nalguns casos, o grupo já começou mesmo a recorrer à rega através de drones para tentar salvar plantas mais afectadas. “Pontualmente já estamos a fazer isso. Desde que a planta ainda tenha folha conseguimos fornecer-lhe água por essa via”.
O responsável admite ainda que os efeitos poderão prolongar-se para a próxima campanha agrícola. “Já tenho algumas plantas mortas. Basta um gota-a-gota entupido ou uma planta mais afastada da rega para ela entrar rapidamente em stresse hídrico.”
“Andamos sempre a correr atrás do prejuízo”
Mais do que responder às perdas depois de elas acontecerem, Nuno Tavares Pereira considera que Portugal deveria apostar numa verdadeira política de prevenção. “Andamos sempre a correr atrás do prejuízo. Existe uma calamidade, aparecem medidas extraordinárias e depois volta tudo ao mesmo”, conta, frisando que o Estado deveria apostar decisivamente nos seguros agrícolas.
“Se todos os agricultores que recebem apoios fossem obrigados a ter seguros, com comparticipação pública, toda a gente ficava mais protegida e os preços dos seguros baixavam”, conta o empresário, defendendo que o investimento público nesta área seria menor do que o montante actualmente gasto em apoios extraordinários. “O Governo, em vez de gastar depois dezenas de milhões de euros em indemnizações, podia ter melhores resultados com um investimento muito menor nos seguros agrícolas”, conta, salientando que o Governo também devia obrigar as seguradoras a disponibilizar coberturas para todas as regiões e para riscos como granizo, cheias ou escaldão.
“No nosso caso, por exemplo, não conseguimos fazer seguro para escaldão nos mirtilos. Todos os anos temos esse problema e continuamos sem solução.”
Na comparação com Espanha, considera que existe uma maior proximidade entre o Estado e os agricultores. “Lá existe muito mais organização. O Estado ajuda a criar condições para os agricultores produzirem e desenvolverem as explorações”, conclui.
“Não podemos substituir agricultura por painéis solares”
A expansão das grandes centrais fotovoltaicas em terrenos agrícolas é outra das preocupações de Nuno Tavares Pereira. Segundo o responsável da área agrícola do Grupo Tavfer, o país deve apostar nas energias renováveis, mas sem retirar solos férteis à produção agrícola.
“Os painéis fotovoltaicos são importantes para produzir energia limpa, mas não faz sentido ocupar dezenas ou centenas de hectares de terrenos agrícolas.”
Numa exploração do grupo localizada junto de uma central fotovoltaica, garante que já sente consequências directas. “Tenho uma plantação onde instalaram mais de dez hectares de painéis a cerca de 500 metros e a temperatura média naquela zona aumentou quatro ou cinco graus.”
Na sua opinião, o futuro passa por soluções que permitam compatibilizar as duas actividades. “Acredito num sistema misto, em que agricultura e produção de energia possam coexistir.”
O problema, defende, é quando empresas sem ligação ao sector agrícola ocupam grandes áreas de terrenos produtivos. “Acabam com agricultura que existia em solos férteis e isso vai correr mal no futuro. O território fica mais abandonado e perde a capacidade de produzir alimentos.”
Também aqui considera que é necessária uma estratégia nacional de ordenamento. “Temos de pensar território a território e encontrar formas de conjugar agricultura, energia e desenvolvimento, em vez de colocar uma actividade contra a outra”, conclui.
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