Oliveira do Hospital e APA formalizam protocolo para recuperar o rio Cobral, mas autarca de Meruge fala em “atirar areia para os olhos do povo”

Acordo foi assinado no Dia Nacional da Água e prevê a intervenção no curso de água desde a nascente até à foz. Junta de Meruge não é contra a intervenção, mas diz que a recuperação do rio não resolve, por si só, o problema que está nas descargas poluentes. O autarca disse que existiram novas descargas poluentes no últimos dias.

A Câmara de Oliveira do Hospital formalizou ontem (1 de Outubro) com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) o protocolo para a recuperação do rio Cobral, num acordo assinado em Seia, no Dia Nacional da Água, numa cerimónia que contou com a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho. O documento enquadra a intervenção nos cerca de 15 quilómetros do curso de água desde a nascente, em São Romão, concelho de Seia, até à foz, no rio Seia, em Travanca de Lagos, concelho de Oliveira do Hospital.

A intervenção contempla a recuperação e valorização ecológica do leito e das margens, o controlo de espécies invasoras e a recuperação da vegetação autóctone. Entre as acções previstas estão a melhoria das condições de escoamento, a estabilização do leito e das margens através de técnicas de engenharia natural e a recuperação da galeria ribeirinha, com o objectivo de contribuir para a conservação dos habitats, a promoção da biodiversidade e a melhoria da qualidade da água. Está ainda prevista a sensibilização da comunidade local para a conservação dos sistemas fluviais.

A Junta de Freguesia de Meruge não está convencida. Não contesta a necessidade de recuperar o rio, mas entende que esta intervenção não será suficiente se não houver medidas dirigidas às fontes das descargas. “O que é fundamental é eliminar as fontes de poluição, e isso não está a acontecer”, afirmou o presidente da Junta, João Abreu, defendendo o investimento em equipamentos de tratamento de efluentes, nomeadamente ETARs, para impedir que resíduos resultantes da actividade da indústria de lacticínios continuem a chegar ao rio.

“Não somos contra a renaturalização, como é óbvio. Limpar os rios é importante. Agora, não atirem areia para os olhos da população. Não nos queiram iludir. Isto não resolve o problema da poluição”, afirmou João Abreu. O presidente da Junta de Meruge entende que o financiamento associado à intervenção acaba por servir para dar resposta ao descontentamento das populações, sem resolver a origem da poluição. “A Câmara vai atrás do dinheiro”, afirmou, referindo-se aos cerca de 500 mil euros associados ao projecto, valor que disse não saber se corresponde apenas à intervenção em Oliveira do Hospital ou ao conjunto da intervenção.

A Junta de Meruge tem insistido sobretudo na necessidade de fiscalizar a actividade de unidades da indústria de lacticínios na zona de Catraia de São Romão, no concelho de Seia, algo que, no seu entender, não tem existido, frisando mesmo que nos últimos dias voltaram a acorrer novas descargas no rio Cobral. “Durante mês e meio, quando isto andou aí nas televisões e nas rádios, não demos conta de haver descargas”, afirmou, acrescentando que, segundo lhe foi transmitido, terá ocorrido uma nova descarga esta semana e outra na semana anterior.

O presidente da Junta considera que uma intervenção física no rio poderá até tornar mais evidentes futuros episódios de poluição. “Se houver descargas, elas vão ficar muito mais evidentes”, afirmou, defendendo que o problema tem de ser combatido na origem. “Não há uma fiscalização eficaz”, concluiu, acusando as autoridades de “contemporização” com os responsáveis pelas descargas.

O presidente da Câmara de Seia, Luciano Ribeiro, porém, apresentou o protocolo como o início de um percurso destinado a devolver o rio Cobral às populações. Tendo apontado a recuperação do rio Seia como exemplo, defendeu o envolvimento da comunidade e da indústria dos lacticínios no processo de requalificação ambiental.
O autarca sublinhou que a recuperação do rio deve ser acompanhada por medidas que evitem a repetição dos problemas e garantam a sua protecção a longo prazo.

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