Um raciocínio errado que aparenta ser verdadeiro designa-se de Falácia.
Na sua grande maioria, os indivíduos do sexo masculino que pretendem aprender fotografia não o fazem porque esta é uma disciplina das Artes Visuais e procuram nela uma forma de expressão para o Mundo. Fazem-no apenas por questões técnicas e dentro deste capítulo, relacionados com o equipamento.
Os indivíduos do sexo masculino parecem fascinados pela aparente complexidade dos equipamentos, e não apenas os fotográficos. Os equipamentos aparentemente mais complexos são caros. O preço dos equipamentos, associado à sua aparente complexidade e o preço e a complexidade associados ao seu uso leva os homens a achar que de alguma forma aparentam ser mais inteligentes ou mais sofisticados e, de alguma forma mais bem aceites na sociedade.
E este é o móbil número um. Não para a aprendizagem da fotografia, mas sim para a aquisição de equipamento fotográfico. Aprender fotografia? Não. Ser socialmente aceite ou aparentar ser mais inteligente, sensível e rico? Sim.
Até porque a aprendizagem da fotografia como disciplina das Artes Visuais dá trabalho e leva tempo. As pessoas em geral têm interiorizado que aprender música e tocar um instrumento musical no Conservatório leva tempo e requer trabalho. E é necessário recorrer ao Conservatório, porque aí estão os bons Mestres. Porém, de alguma forma, as pessoas em geral acham que basta comprar a camera fotográfica (de preferência cara) e já se faz boa fotografia.
Resumindo, para que fique claro: quando os nossos filhos entram no conservatório nós vamos perguntar ao professor que instrumento devemos comprar. Quando eu apanho um formando de fotografia (lembro que me estou a referir aos indivíduos do sexo masculino), este invariavelmente vem dizer “tenho esta camera, e acho que é boa”. Mas apenas é boa porque é de uma marca conhecida (e que existe para ganhar dinheiro, porque o negócio dos fabricantes é vender equipamentos fotográficos), ou porque um amigo que é fotógrafo disse para a comprar porque é boa (e mandou comprar aquela porque o dinheiro nem sequer é dele).
Mais tarde este formando vai perceber duas coisas: gastou dinheiro (muitas vezes proibitivo) a comprar algo que, afinal não é assim tão bom, ou não lhe serve tão bem. Percebe também que ser fotógrafo não é sinónimo de ser bom ou deter conhecimento.
A mim, pessoalmente incomoda-me e deixa-me triste esta forma superficial com que se encara a fotografia nos nossos dias. E ando há muitos anos a lutar para a valorização da fotografia como forma de expressão artística.
Acontece que as instituições são preenchidas por pessoas e as pessoas, como referi, menosprezam a fotografia e isto gera um binómio: a aprendizagem da fotografia é menosprezada e isto gera um grande número de pseudo-profissionais. Um piloto não é piloto apenas porque tem um carro de corridas. Por outro lado, as pessoas que representam instituições que consomem fotografia, na sua maioria não são capazes de distinguir o trigo do joio e invariavelmente fazem a aquisição dos serviços fotográficos mais baratos.
Hoje menospreza-se esta forma de expressão, a única que contribuiu de forma activa, formal e indubitável para as grandes mudanças socias e políticas no Mundo. Hoje em dia, os indivíduos do sexo masculino, pelas questões que referi anteriormente, na sua maioria são possuidores de câmeras fotográficas e “tirar ali umas fotos para pôr no facebook da minha loja” parece coisa simples e que qualquer um pode fazer. E pode, a verdade é que pode… Mas faz bem? A verdade é que não.
Por outro lado, os que adquirem equipamentos fotográficos sofisticados e, depois de ler os seus manuais de instruções de ponta a ponta, os exibem orgulhosamente em público julgam-se imediatamente capazes de surpreender um David Lachapelle apenas porque aprenderam o que fazem alguns daqueles botões que as suas câmeras possuem, muitos desses botões qualquer fotógrafo que se digne muito raramente usa.
Já as senhoras admiram as boas fotografias que os bons fotógrafos apresentam. E a motivação para se iniciarem nesta disciplina é fazer fotografias como aquelas que vêm deste ou aquele fotógrafo. Mais tarde, quando começam a fazer perguntas, a investigar e a querer aprender percebem que atingir aquela qualidade nos trabalhos leva anos.
Um fotógrafo que conheça a responsabilidade de ostentar esse nome sabe perfeitamente que trabalhar fotografia exige 90% de transpiração e 10% de inspiração. Alguém que deseje aprender a tirar fotografias não precisa de adquirir equipamento profissional ou semi-profissional para o fazer.
Alguém que pertença ao exclusivo grupo daqueles que querem aprender fotografia mentalize-se de que o caminho é longo, não tem atalhos, fotografar e editar são coisas diferentes e que, tal como na música, aprender fotografia exige muito treino, dedicação e sofrimento.
Uso frequentemente a expressão “Fazer omeletes sem ovos” quando me dirijo aos meus formandos de fotografia. Porque o quando entram numa sala de formação querem fazer “esta fotografia” ou “aquela outra”, ou saber “como se consegue fazer aquele efeito” (normalmente referindo-se a técnicas específicas). Pois… é tudo o que querem… Fazer igual. Não querem aprender a disciplina, a forma de expressão que os pode diferenciar, os princípios básicos que a regem ou conhecer os Mestres que ousaram (sempre conhecedores profundos da disciplina) trilhar novos caminhos (também sempre detentores de uma identidade e linguagem próprias).
Investir em fotografia é caro. Sempre foi caro e esta coisa da democratização da fotografia é muito bonita, mas como argumento de venda. Quando se quer chegar a este ou àquele efeito ou técnica normalmente é preciso gastar dinheiro. Quando alguém não sabe, pergunta e quando pergunta, quem responde não pensa na resposta que vai dar porque o dinheiro não é dele.
Em fotografia depois acontece um fenómeno engraçado. Toda a gente pergunta “compro esta objectiva que custa 150 euros, ou compro aquela que custa 1800?” Normalmente acabam por comprar primeiro a barata e depois a cara. Raramente aparece a pergunta “compro ou não”. Na grande maior parte dos caos, a minha resposta é quase invariável: “não compres, primeiro aprende e quando souberes o que comprar sem ter de pedir conselho a ninguém, sabes que adquiriste o conhecimento necessário para fazer uma compra consciente”.
Isto porque tendemos a invejar aquilo que os bons fazem com aquela objectiva que faz uma distância focal que a nossa não faz. Mas não reparamos no excelente trabalho que esse mesmo fotógrafo faz com aquela objectiva que tem com a mesma distância focal da nossa. É consumismo, mais nada.
Quem quer aprender a tirar fotografias, a usar a câmera cara que adquiriu, pode até chegar a fazer algumas coisas engraçadas. Quem quer aprender fotografia entra numa busca que o leva, invariavelmente a uma paixão profunda e a uma necessidade constante de procurar no Mundo real pequenos apontamentos que leva os seus observadores ao sonho.
Autor: Rui Campos
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