*Esta entrevista foi concedida antes de ocorrerem os incêndios que ainda hoje lavram na região…
Depois de várias candidaturas noutras terras e de ter sido eleito por duas vezes presidente da Assembleia Municipal de Oliveira do Hospital, António Lopes decidiu apresentar-se como candidato na sua terra natal, Unhais da Serra, concelho da Covilhã, onde pretende implementar um modelo de governação baseado na participação activa da população e na revitalização da freguesia. António Lopes fala da sua candidatura, mas também do momento político em Oliveira do Hospital. O PS oliveirense e o ex-presidente da autarquia José Carlos Alexandrino são os principais alvos das criticas. Diz mesmo que a degradação da gestão local e a falta de visão estratégica dos executivos PS em Oliveira do Hospital têm, desde que chegaram ao poder em 2009, contribuído para o definhamento do concelho.
CBS — O que o levou a mudar-se de território político, deixando o concelho de Oliveira do Hospital para ser candidato em Unhais da Serra?
António Lopes — Estou como os elefantes que voltam às origens para morrer. Tenho 75 anos e, ao longo da minha vida, nunca dormi mais de cinco anos na mesma cama, pelo que considero isto um ciclo normal da vida. Senti, depois de ser candidato seis vezes na terra dos outros, que talvez tinha a obrigação de ser candidato na minha terra. É uma questão de cidadania, que hoje anda arredada das pessoas, pela qual acho que ninguém está dispensado de dar o seu contributo à sua terra. Não obstante já ter feito algumas coisas dentro das possibilidades que tive, continuo a achar que os bens materiais são uma coisa e a gente dar o corpo ao manifesto é outra.
Está desiludido com a política praticada em Oliveira do Hospital?
Fui candidato naquele casamento espúrio com o PS entre 2009 e 2017, tendo abandonado a liderança da Assembleia Municipal logo após a tomada de posse, em finais de 2013, consumada em Abril de 2014. Continuei na Assembleia Municipal. Nessa altura, passei a ser uma pessoa pouco recomendável para aqueles que em 2009 diziam que eu era uma pessoa insubstituível, com direito a estátua.
Que ilações tirou desse episódio num executivo que era liderado por José Carlos Alexandrino?
Não tenho de tirar ilações do episódio com José Carlos Alexandrino, mas sim da política em si. Alguém disse que ninguém deve fazer nada de que se arrependa, mas se tiver de se arrepender, que o faça depressa. Estou arrependido e arrependi-me depressa quando percebi que estava a ser usado e que não seria executado o projecto que sempre defendi e continuo a defender. Quando uma pessoa se candidata, candidata-se para servir, não para se servir. Com verdade, ninguém poderá dizer que me aproveitei de um cêntimo destas candidaturas. É conhecido que paguei muito dentro daquele espírito de dar o melhor de nós. Não só tentei dar o meu melhor enquanto pessoa, como tentei ajudar dentro das disponibilidades materiais que tinha.
Sente amargura face à forma como foi tratado?
Sinto um amargo forte. Havia uma pessoa em Oliveira do Hospital, Rodrigues Gonçalves, que definia isto muito bem: Deus manda-nos ser justos, mas não nos manda ser ingénuos. Tenho de reconhecer que na minha vida tenho sido ingénuo. Mas não estou arrependido de o ser. Prefiro isso a ser oportunista. E o que tenho encontrado ao longo da vida política são oportunistas, com mais ou menos escrúpulos. Gente que se serve dos lugares para manipular consciências e explorar dificuldades alheias.
Foi “essa gente” que encontrou no executivo do PS da CM de Oliveira do Hospital?
Sim. E há coisas que me entristecem. Por exemplo, havia lá três ou quatro pessoas, mesmo aparentemente de outros partidos, que não vou nomear, que me apoiavam porque achavam injusto o que me estava a ser feito. Davam-me informações importantíssimas. Mas hoje vejo essas pessoas a cantar hossanas ao poder só porque, entretanto, o poder, que não é burro, foi percebendo quem eram os cabos eleitorais — como se diz no Brasil — e assimilou-os para o seu lado, em troca de ganhos materiais. Dessas pessoas, de quem continuo amigo, sinto pena. Diziam mal de tudo e de todos e agora…
Essas pessoas mudaram por terem recebido favores?
Sim. Favores daqueles que se servem dos cargos políticos como é a Câmara para serem alguém na vida. Não é o meu caso. Posso tomar todo o dinheiro que recebi da política em veneno, que não morro. Em Oliveira do Hospital sabem disso. E mesmo agora que lá não estou, continuo a ajudar. Não sou lá candidato, portanto não podem dizer que ando a comprar votos ou vontades.
Está a dizer que o executivo está mais preocupado com o voto do que com o desenvolvimento?
Este poder não está ali para desenvolver o concelho, mas para se servir do poder. Uma Câmara que, no tempo do Mário Alves, que eu tanto critiquei, tinha dois vereadores e meio, com Alexandrino passou a ter quatro, fora aqueles que foram colocados como chefes de gabinete e directores disto e daquilo. A Câmara virou uma agência de emprego, para não dizer de compra de voto. É o que temos hoje e o concelho vai definhando. Este executivo socialista tratou da vidinha dos seus elementos. Estão a governar para o voto. O povo quer festa, dá-se festa. O povo quer bola, dá-se bola. Não se preocupam em encaminhar o dinheiro para investimentos que visem o desenvolvimento e o bem-estar da população.
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Vou-lhe dar um exemplo do desinteresse deste executivo no empreendedorismo. No dia 2 de Maio do ano passado, pedi uma reunião ao senhor presidente da Câmara para apresentar um israelita que queria comprar a aldeia do Vieiro e investir no concelho. Fui lá, deixei os documentos, disseram que marcariam uma reunião para uma semana depois. No dia 2 de Maio deste ano liguei ao presidente às 8 horas para lhe lembrar que fazia um ano que tinha assumido um compromisso comigo. Ele disse que nos próximos dias me iria chamar. Estamos em Agosto e não recebi qualquer contacto. Como é que o concelho se pode desenvolver? Será revanchismo ou desinteresse? Não sei. Acredito que todos os investidores têm este tratamento. Não quero acreditar que seja revanchismo. Mas se for, o que mais tenho é onde gastar o dinheiro.
Mas foi um dos responsáveis pela ascensão ao poder do ex-presidente da Câmara, José Carlos Alexandrino?
Acho que ele nunca deixou de ser presidente da Câmara. Mas pronto… E é verdade que tive responsabilidade na sua chegada ao poder e ele sabe bem que foi por minha causa e pela acção do senhor Fernando Tavares Pereira que ganhou a presidência da Câmara em 2009. Fomos nós que o indicámos, convidámos e suportámos a candidatura. Eu gastei cerca de um milhão de euros no concelho de Oliveira do Hospital. Não foi com esse objectivo, mas resultou nesse objectivo. José Carlos Alexandrino revelou-se um “bluff”, principalmente do ponto de vista intelectual e ao nível democrático. Chamo-lhe o Deus Sol. Sofre de um narcisismo incontrolável. Dizia que eu era uma pessoa que tinha o coração do tamanho do mundo e que merecia uma estátua. Mas quando passei por um dos períodos mais difíceis da minha vida, em que em duas semanas perdi 50 milhões de euros, ele não escondia a satisfação pelo que me aconteceu e chegava mesmo a regozijar-se. Para descanso dele, porém, num curto prazo, há-de entender que não precisei da política nem de vender a alma ao diabo para voltar ao lugar que é o meu. Dele só espero que seja feliz e que não prejudique mais o concelho de Oliveira do Hospital. Acreditei muito e investi muito no projecto. Estava convencido de que, pela origem das pessoas e pelas potencialidades do concelho, havia possibilidades de dar certo. Não deu.
Que exemplos de má gestão apontaria ao actual executivo?
Repugna-me mesmo quando se gastam milhares e milhares em festas, enquanto se gastam apenas 50 mil euros em bolsas de estudo e 35 mil euros em apoio à natalidade. E depois não existem apoios para quem não tem dinheiro para medicamentos. Eles investem pura e simplesmente no voto. Não gerem o município numa perspectiva, que era a minha, de tentar garantir médicos, assistência capaz, apoio ao ensino para os mais carenciados. Não. Pensam apenas em tratar da vida e manter o poder.
Tem sido muito crítico em relação ao cumprimento da legislação de prevenção dos incêndios por parte da autarquia…
Depois do que se passou em 2017, com as pessoas que morreram, veja as bermas das estradas do concelho, dentro da cidade, no parque industrial onde ardeu tudo… Mesmo depois daquela catástrofe continuam a não se cumprir a lei. É o desleixo completo. Fiz uma queixa ao Ministério Público contra os presidentes de Câmara por homicídio por negligência. Para mim, num país a sério, o Alexandrino estava na cadeia por homicídio por negligência, tal como outros iguais a ele. Gastam um milhão de euros em festas e bola e não cumprem a lei. Um milhão de euros era suficiente para limpar o concelho, pelo menos nos dez metros em volta das estradas, como manda a lei. Não sou contra a bola, mas contra aquele sistema em que o número de equipas é incompatível com as possibilidades do concelho. Oliveira do Hospital tem mais clubes a competir do que o concelho da Covilhã e nem sequer ganha com a ocupação de camas, uma vez que a equipa principal estava obrigada a disputar jogos noutro concelho. De resto, o concelho tem apenas um único hotel de referência, o Aqua Village, do Francisco Cruz, que foi feito praticamente em luta contra a Câmara. Aproveito para lhe dar os parabéns pelo trabalho que ali fez. Em vez de apoios, teve um caminho ensebado.
Que razões aponta para a dificuldade, por exemplo, em fixar médicos no concelho?
Oliveira do Hospital, com dez por cento do que gasta em festas e bola, fixava os médicos que precisa. Porque é que os concelhos à volta conseguem ter médicos e Oliveira do Hospital tem duas vagas para as quais ninguém concorre? As eleições foram feitas para punir quem governou mal e premiar quem governou bem. Há eleições, logo existe a oportunidade de a população corrigir erros. Espero que não pretendam continuar com um executivo que só tem três focos e apenas um importa: o voto, não interessa como. E, como já perceberam que o pessoal gosta de festas e bola, dão-lhes festas e bola. Por isso é muito difícil afastá-los do poder. Eles vivem pelo poder.
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A Festa do Queijo, por exemplo, é feita para promover um produto que não têm para vender, quando se devia apostar na promoção em mercados de referência e incentivar quem quer enveredar pela actividade. Quando apareceu um jovem a dizer que queria um rebanho de ovelhas, vieram-me as lágrimas aos olhos. Eu não estava bem financeiramente, porque eu próprio lhe teria dado as ovelhas. Mas a Câmara não se importou. Estar ali um jovem a querer e não haver incentivo por parte do município é deplorável. Também não se preocupam com o crescimento dos rebanhos de bordaleira e mondegueiras nem com a certificação. O projecto em que participei defendia que se comprassem terras que estão ao abandono para criar uma espécie de cooperativa com um duplo objectivo: fazer uma escola de formação e utilizar os produtos agrícolas e pecuários para abastecer as IPSS do concelho e as escolas. Era também uma forma de limpar os terrenos e combater os incêndios. Mas isso não dá votos e aquela gente do PS vive para ganhar votos.
Arrepende-se de ter ajudado a afastar Mário Alves e o PSD da liderança da Câmara?
O Mário Alves, tal como eu em alguma medida, tem um narcisismo exacerbado. Mas não me custa reconhecer que, de tudo o que ali vi, foi o indivíduo com mais espírito de Estado. Hoje reconheço que fui injusto com o homem, embora ele não fosse muito de ouvir. Se alguma coisa me arrependo não é de o ter ajudado a substituir, mas sim de não o ter substituído por alguém melhor que ele. Não prestei um bom serviço ao concelho.
O que acha da candidatura de Mário Alves à Assembleia Municipal contra José Carlos Alexandrino nas eleições que se avizinham?
Nem comento. Só a comparação com José Carlos Alexandrino é ofensiva para o Mário Alves.
António Lopes quer ajudar “a combater a desertificação” em Unhais da Serra e “potenciar as mais valias” daquela localidade serrana
Candidato da CDU propõe gestão estruturada da vila, aposta no turismo e garante cumprimento da lei na limpeza dos terrenos
Unhais da Serra conta com seis restaurantes, entre os quais dois ou três de referência, um hotel de destaque, uma empresa têxtil, farmácia e lar de idosos. Tem praticamente todas as valências essenciais. Apesar destas infra-estruturas, o candidato da CDU à Junta de Freguesia de Unhais da Serra, António Lopes, considera que a freguesia enfrenta sérios desafios relacionados com a desertificação e o definhamento das instituições locais.
Se obtiver a confiança dos eleitores, António Lopes diz ter como objectivo implementar um modelo de governação assente em sete ou oito departamentos, dedicados à cultura, aos serviços sociais de apoio a idosos e outras áreas essenciais. Pretende aproveitar o potencial da população, incentivando os reformados a manterem-se activos com uma missão concreta, e envolver a sociedade civil para reanimar o associativismo local, que tem vindo a diminuir devido à redução do número de habitantes. “Um dia fiz contas e 30 por cento da população participava nas actividades lúdicas e culturais, hoje serão cerca de 10 ou 15 por cento. Queremos inverter esta tendência”, refere.
O candidato quer também apostar no turismo. Propõe melhorar a praia fluvial e aproveitar os leitos de água da freguesia para construir espelhos de água, transformando Unhais da Serra numa referência na região. Entre as suas prioridades estão ainda a melhoria das acessibilidades dentro da freguesia, actualmente deficitárias, e limitar o centro da vila ao trânsito pedonal.
A gestão da floresta integra também o seu programa. António Lopes compromete-se a manter todos os terrenos limpos, cumprindo a legislação de prevenção dos incêndios, nomeadamente a coroa de 100 metros em redor da vila. “Não quero que aqueles que eu acuso depois me possam apontar o dedo. Vamos cumprir rigorosamente a lei. Pode ser pouco simpático, mas em caso de incêndio as pessoas vão agradecer”, sublinha.
O desenvolvimento do turismo e da habitação, bem como a criação de condições para revitalizar Unhais da Serra, fazem igualmente parte do seu projecto. António Lopes defende ainda a construção de um pavilhão para a freguesia, afirmando que o que falta é investimento e capacidade para aproveitar o que a natureza oferece.
O candidato critica a falta de visão estratégica dos políticos e a ausência de descentralização, sublinhando que muitas soluções que poderiam ser produzidas localmente acabam por ser feitas em Lisboa ou no Porto, quando esta região do interior está mais próxima da fronteira e poderia beneficiar do comércio de exportação.
António Lopes alerta ainda para a contradição entre a crise de habitação a nível nacional e o elevado número de casas e campos abandonados na freguesia. Considera que não existem políticas que incentivem a fixação das pessoas no interior, sobretudo face à distância dos serviços essenciais, como a saúde e a justiça.
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