Terapia fágica: mais uma “arma” contra as bactérias. Autor: Luís Monteiro

Um dos maiores avanços da ciência no século passado foi a descoberta e disseminação dos antibióticos. Recordemos que até então as doenças infecciosas ceifavam vidas precocemente numa dimensão superior aos conflitos armados.

Mas esse sucesso contribuiu para um dos enormes desafios médicos da nossa era: como tratar os doentes infectados com bactérias resistentes aos antibióticos?

Uma das soluções é a terapia fágica.

E em que consiste?

A terapia fágica, ou fagoterapia, corresponde ao uso médico de bacteriófagos: vírus que possuem a particularidade de infetar exclusivamente bactérias, sendo específicos para uma espécie bacteriana ou para algumas estirpes bacterianas, destruindo-as.

Não é uma ideia contemporânea pois, na verdade, remonta ao início do século XX.

Os fagos foram descobertos de forma independente pelo britânico Frederick Twort em 1915 e pelo franco-canadiano Félix d’Hérelle em 1917.

No entanto, só em 2018 é que um país da Europa Ocidental (Bélgica) autorizou o uso da terapia fágica para tratar infeções causadas por bactérias resistentes a antibióticos.

Vários estudos provaram a sua mais valia.

Recentemente uma investigação do Laboratório de Microbiologia Aplicada do Departamento de Biologia e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro estudou uma estirpe de Pseudomonas aeruginosa resistente a vários antibióticos.

A investigação concluiu que os melhores resultados foram obtidos utilizando apenas fagos, comparativamente aos resultados obtidos usando apenas o antibiótico ciprofloxacina ou mesmo o tratamento combinado dos fagos com a ciprofloxacina, que não aumentou a inativação de P. aeruginosa.

Felizmente, Portugal está no pelotão da frente: o INFARMED, I.P. aprovou recentemente uma norma orientadora sobre a utilização de medicamentos manipulados para terapia fágica em contexto hospitalar para o tratamento de doentes individuais.

A terapia fágica é complementar e não diminui a importância do uso criterioso de antibióticos, mas é mais uma prova de que vale a pena investir na ciência e inovação.

 

 

 

 

Luís Monteiro

Médico e Comunicador de Ciência

 

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