Os ofícios tradicionais das serras do interior voltaram a valer um prémio a Tiago Cerveira no CineEco. O realizador natural de Travanca de Lagos, no concelho de Oliveira do Hospital, venceu o Prémio Panorama Regional da 32.ª edição do Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela com “Maços e Martelos”, documentário que regista os gestos, os materiais e os sons de práticas artesanais que persistem nas comunidades rurais.
Estreado em 2025, o filme tem 23 minutos e percorre oficinas e forjas onde se trabalha a madeira, o ferro, a lata e a pedra. É a partir do som produzido pelo embate do maço e do martelo que Tiago Cerveira constrói uma composição musical original, transformando o quotidiano do trabalho manual numa experiência sensorial que aproxima o património tradicional da criação contemporânea.
O prémio prolonga um percurso já reconhecido pelo festival de Seia. O realizador tinha vencido por três vezes na competição Panorama Regional, em 2015, 2019 e 2020, e regressa agora aos premiados com um trabalho centrado na preservação das práticas e das memórias das comunidades do interior.
Licenciado em Comunicação Social, Tiago Cerveira trabalhou como jornalista e repórter de imagem antes de se dedicar à realização independente e à fotografia e ao vídeo documentais. Os seus projectos têm privilegiado o património material e imaterial do Portugal rural, procurando registar modos de vida, saberes e traços identitários que ajudam a definir as comunidades. Entre eles estão “O Meio e a Gente” e “Rostos da Aldeia”.
Dois agricultores, duas visões sobre a terra
O Grande Prémio Ambiente, atribuído pelo Município de Seia, distinguiu “Derek vs Derek” (2026), do realizador britânico James Dawson. O documentário acompanha dois agricultores vizinhos de Devon, no Reino Unido, que partilham o mesmo nome, mas defendem visões opostas sobre a utilização da terra.
Derek Banbury, produtor de leite, critica a transformação da propriedade vizinha, enquanto Derek Gow, antigo criador de gado, procura devolver espaço à natureza e converter as suas terras num refúgio para a biodiversidade. O confronto entre ambos dá corpo a uma reflexão sobre a gestão do território e as dificuldades de conciliar diferentes perspectivas sobre a relação entre a actividade humana e o ambiente.
O júri destacou a abordagem do filme à polarização política e cultural e aos obstáculos à procura de soluções para os problemas ecológicos. Na mesma competição, a menção honrosa foi atribuída a “The System” (2025), do realizador neerlandês Joris Postema.
Cheias no Brasil e sobrevivência na Mongólia entre os premiados
A programação premiada da 32.ª edição do CineEco incluiu também documentários sobre catástrofes naturais, biodiversidade e as relações entre as comunidades e o território. Na competição de longas-metragens em língua portuguesa, o Prémio Camacho Costa distinguiu “Rua do Pescador N.º 6” (2025), da realizadora brasileira Bárbara Paz, sobre as cheias que atingiram o Rio Grande do Sul, no Brasil, em 2024, e as consequências para as populações afectadas.
Já o Prémio Antropologia Ambiental foi atribuído a “Iron Winter” (2025), do australiano Kasimir Burgess. O filme acompanha Batbold, um jovem que procura proteger mais de mil cavalos durante um Inverno particularmente severo no vale de Tsakhir, na Mongólia.
Na competição internacional de curtas e médias-metragens, o vencedor foi “1,5 y Más” (2026), do espanhol Miguel Dorado. “Remigia’s Lessons”, da realizadora filipina Jewel Maranan, recebeu uma menção honrosa. Na categoria de curta e média-metragem em língua portuguesa, o prémio foi para “Floresta do Fim do Mundo” (2026), de Denilson Baniwa e Felipe M. Bragança.
A educação ambiental e a ficção também tiveram lugar entre os distinguidos. “Guerreiros Plantados” (2026), dos brasileiros José Carbonel e Rui Mendonça, venceu o Prémio Educação Ambiental, enquanto “El Canto del Jaguar” (2026), da mexicana Antonia Silva Alvarado, foi distinguido na categoria de curta-metragem de ficção, não ficção e animação. Na animação, o prémio coube a “Aller & Retour” (2025), de Lucia Bulgheroni e Michele Greco.
Entre os prémios especiais, “Black Water” (2025), de Natxo Leuza, recebeu o Prémio Valor da Água, e “La Fjella Leve” (2026), do norueguês Håvard Bustnes, conquistou o Prémio Juventude.
Mais de três mil espectadores
A 32.ª edição do CineEco reuniu mais de três mil espectadores, dos quais 1120 eram alunos de escolas do concelho de Seia e de municípios vizinhos. O festival contou ainda com a presença de 45 cineastas provenientes de 15 países, reforçando a dimensão internacional da programação.
A próxima edição já tem datas anunciadas e decorrerá de 8 a 16 de Outubro de 2027. O festival de Seia mantém assim a aposta no cinema como instrumento de reflexão sobre as questões ambientais e as relações entre as comunidades e os territórios que habitam.
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