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“Os jovens não podem continuar a afastar-se da política…”

Cláudia Saraiva tem 24 anos, está a concluir o mestrado em Administração e Gestão Pública na Universidade de Aveiro e foi eleita presidente da concelhia da Juventude Popular (JP) de Oliveira do Hospital. Esta jovem do Senhor das Almas, Freguesia de Nogueira Do Cravo, quer devolver a dinâmica que caracterizou a JP antes das eleições autárquicas. Pretende que promover iniciativas que levem os jovens a interessar-se pela política. Mostra-se muito critica em relação ao actual executivo da Câmara Municipal e diz que o concelho Oliveirense tem cada vez menos atractivos para os jovens e para a população em geral. Quer uma política de habitação e uma ponte entre os estudantes e o tecido empresarial concelhio. Considera ainda necessária uma mudança. Diz que é preciso uma Câmara capaz de atrair investimento e exigir melhores serviços de saúde, de justiça e reivindicar as acessibilidades há muito prometidas. “Durante estes anos de liderança autárquica do PS o que é que melhorou? Nada. Continuamos a perder população, a perder jovens, a perder empresas…. Só temos ‘as maiores festas’ e batemos palmas. No resto, vamos aos serviços dos concelhos vizinhos”, conta em entrevista ao CBS.

CBS – O que é que a levou a candidatar-se à liderança da Juventude Popular de Oliveira do Hospital?

Cláudia Saraiva – Já estou filiada há alguns anos. Nunca tive uma participação em termos de direcção, porque entendo que para estar num projecto tem de ser a 100 por cento e só agora surgiu essa possibilidade. Mas já tive algumas responsabilidades nas últimas eleições autárquicas. Nesta fase, senti que a Juventude Popular (JP) de Oliveira do Hospital precisava de alguém que desse continuidade ao que foi feito pelo João Miguel Pais. É um grande desafio, porque o meu antecessor desenvolveu um bom trabalho. Mas estou convencida que vou conseguir manter o nível a que a JP já habituou os oliveirenses. Este concelho é fundamental na minha vida. Farei tudo o que puder para ajudar ao seu desenvolvimento e para o bem-estar desta comunidade. Estou há cinco anos em Aveiro e se passei cinco fins-de-semana sem vir a Oliveira do Hospital foi muito. Estou muito ligada a esta terra e quero dar o meu contributo.

O CDS-PP é um partido que vive uma situação muito complicada…

A seu tempo esse problema será superado.

Acredita mesmo?

Sim. Mas a JP até reforçou a sua posição em Oliveira do Hospital nas últimas autárquicas, em 2021. Conseguimos vincar a nossa presença no município. Temos uma equipa enorme. Com pessoas que querem realmente trabalhar. Não somos daqueles jovens que aparecem só para abanar bandeiras. Nas autárquicas, por exemplo, estivemos presentes ao longo de todo o processo. Não foi só na campanha eleitoral. O trabalho começou muito antes. E temos a perfeita noção que a JP ganhou muito. Também fomos os vencedores dessas eleições. Temos elementos em Juntas de Freguesia da Coligação, como Alvoco das Várzeas ou S. Gião. Estamos a fazer um percurso bonito. Com muitos jovens incluídos neste projecto.

Quantos elementos tem a JP de Oliveira do Hospital?

Actualizámos recentemente os cadernos e temos cerca de 200 elementos.

Qual é o seu grande objectivo?

A minha equipa quer cativar os jovens. Não só capitalizá-los como militantes, mas, fundamentalmente, instrui-los. Faz-me muita confusão como é que no secundário não existe uma disciplina para introduzir os jovens na política. Hoje em dia, a política está em tudo. Um jovem não pode chegar ao ensino superior e não saber distinguir o PS do CDS-PP. Nós temos aqui um papel fundamental. Queremos trazer novos jovens, consciencializá-los para aquilo que são as problemáticas dos dias de hoje nas mais diversas áreas, seja na educação, ambiente, património, economia ou no desporto. Queremos transmitir-lhes que o dia de amanhã somos nós que o vamos construir. Os jovens não podem continuar a afastar-se da política. Alheando-se da escolha de quem vai governar o país, o município ou de quem é eleito para o Parlamento Europeu.

Sem o interesse principal de os atrair para a JP?

Obviamente que vamos procurar trazer os jovens para aquilo que nós acreditamos.  Mas, sinceramente, se vierem para a política, mesmo seguindo outra linha ideológica, significa que estamos a fazer um bom trabalho.

Como é que pretende fazer esse trabalho?

A candidata à presidência da Associação de Estudantes é militante da JP e, se ela vencer, vamos tentar estabelecer uma parceria entre a secundária. Pretendemos realizar uma campanha de sensibilização para que os mais novos se interessem pela política. Mostrar-lhes a importância de participarem na vida pública e fazê-los sentir responsáveis. Convencê-los que seu contributo é, de facto, importante e que pode fazer a diferença. Não podemos continuar a assistir ao aumento da abstenção. Vamos promover Workshops, debates sobre vários temas.

Sente que existe uma lacuna nessa área?

Completamente. Mas é geral.  No que respeita aos jovens, olhamos para o nosso concelho e vemos um município que não nos dá valor. Que não dá valor ao tecido empresarial, algo que deveria ser uma das preocupações predominantes, para ajudar a fixar os jovens. Como é que nós queremos atrair pessoas para o interior se não conseguimos segurar aqueles que já cá estão e têm apego às suas origens? Porque é que não existe uma política clara para fixar os jovens que estão aqui a estudar no ensino superior?

Como é que se propõe alterar esse estado de coisas?

Não me cabe a mim ou à minha equipa. Não estamos a liderar os destinos do concelho. O nosso papel é convencer os jovens de que devem mostrar o desagrado que sentem com aquilo que o município lhes oferece, ou seja, neste caso, que não lhes oferece. Não há uma política que estabeleça uma linha condutora que faça com que o jovem acabe a sua licenciatura e tenha possibilidade de integrar o mercado de trabalho em Oliveira do Hospital. Não existe uma política de habitação o que faz com que seja impossível encontrar casa a preços acessíveis. E, embora o poder central tenha responsabilidades, a maior parte da culpa deste estado de coisas é deste executivo que nos tem liderado nos últimos anos. Esta Câmara, e a do anterior presidente, não consegue criar dinâmicas empresariais. Não estabelece uma ponte entre os estudantes e as firmas. Mostra-se completamente incapaz de atrair investimento. E nós vamos fazer com que os jovens se batam pelos seus direitos. Não podem sentir-se conformados e resignados. Temos de elevar o nível de exigência sobre os políticos. Não nos podemos contentar apenas com festas.

“Até os jogos de futebol foram para um concelho vizinho…”

Têm surgido queixas quanto ao sistema de saúde em Oliveira do Hospital…

Não é só na saúde, o que só por si já é muito, muito grave. Não temos urgências. Não temos médicos de família e temos uma população idosa. Mas, infelizmente, a degradação deste concelho é extensiva a vários sectores. As pessoas já estão acomodadas. Resignadas. Já nem procuram reclamar. As promessas feitas pelo anterior presidente da Câmara nunca foram cumpridas, no que respeita à saúde e sobre as acessibilidades, que são fundamentais para o desenvolvimento da região. O nosso tribunal ficou também apenas com casos menores. Este concelho merece mais que isto. Mais saúde, mais justiça e melhores vias rodoviárias. Só assim teremos investimento e poderemos fixar pessoas. Durante estes anos de liderança autárquica do PS o que é que melhorou? Nada. Continuamos a perder população, a perder jovens, a perder empresas. Só temos as ‘maiores festas’ e batemos palmas. No resto, vamos aos serviços dos concelhos vizinhos.

Não está a traçar um cenário demasiado negro?

Estou a ser realista. A política socialista na Câmara levou-nos a isto. Até os jogos de futebol de uma competição nacional foram para um concelho vizinho por não existirem estruturas capazes de os receber no concelho de Oliveira do Hospital para receber os jogos do seu clube mais representativo. Ou seja, quando podíamos ser o centro das atenções em termos mediáticos, entregamos isso a um município ao lado. A Câmara ainda não entendeu a importância de ter um emblema da cidade no terceiro maior campeonato do futebol português que todas as semanas passa na televisão com milhares e milhares de visualizações. Vemos tudo a desaparecer. Temos praias extraordinárias e paisagens fantásticas, mas o concelho perdeu este ano a única bandeira azul que lhe restava. Isto diz muito da forma como tem sido governado este município ao longo destes últimos 14 anos. É inacreditável. As pessoas têm de sentir que podem mudar para melhor e deixarem de estar conformadas.

Mas o CDS-PP não deu um bom exemplo nas últimas autárquicas. Tiveram como primeiro candidato à Assembleia Municipal Francisco Rodrigues dos Santos, o líder do partido na altura, que depois não assumiu o cargo. Isso não vos fragiliza perante população?

Veio a uma Assembleia Municipal e depois não voltou. Admito que possam existir pessoas desiludidas e que possam até retirar alguma credibilidade ao partido. Mas temos de ver a vertente humana. Francisco Rodrigues dos Santos viveu momentos conturbados, como o descalabro das legislativas e a sua saída da liderança do partido. Afastou-se. E, perante estes contornos, respeito que ele se tenha retirado temporariamente das lides políticas. É um ser humano. Mas acredito que vai regressar em breve.

Acredita que vai voltar à Assembleia Municipal de Oliveira do Hospital?

Sim. Estou convencida que a nível nacional vão ser criadas pontes para se superar esta crise unindo o partido. Uma crise que é grave. Mas estes problemas tiveram uma virtude: serviram para mostrar que aquilo que nos une é muito mais que aquilo que nos separa. O Francisco vai dar as devidas explicações e regressar à Assembleia Municipal de Oliveira do Hospital. Será um bom reforço para a Coligação. Acredito piamente nisso.

Esta turbulência parece também ter afectado a JP de Oliveira do Hospital. Perdeu dinâmica após as autárquicas. Não concorda?

É um facto. Mas não pelas razões que certamente muita gente invoca. Veja, boa parte dos elementos da JP de Oliveira do Hospital foram eleitos para cargos autárquicos. Foi o caso do seu presidente, João Miguel Pais, do Rafael Dias e do próprio João Duarte. Somos jovens, mas muito responsáveis. Eles sabiam que tinham de adoptar uma atitude de menor confronto com a Câmara Municipal para que as populações das juntas de freguesia onde se encontram não viessem a ser prejudicadas. Isto sem perderem a capacidade reivindicativa. É triste, mas sabemos que o, anterior e o actual, executivo em permanência exerce retaliações contra quem os afronta demasiado. Quem seria mais prejudicado? As populações das juntas de freguesia onde estão os meus colegas. Ora, o CDS-PP pensa em primeiro lugar nas populações.

“Como é que a Casa da Cultura está estes anos todos em obras? É uma vergonha.”

Com a sua eleição vamos ter uma JP mais interventiva?

Não tenha dúvidas. Vamos ter um JP mais activa, mais reivindicativa e a chamar a atenção dos jovens e da comunidade para os problemas no nosso município.

Há quem diga que se vive um alegado “clima de medo” no concelho…

Eu própria sofri retaliações durante as autárquicas. Tive uma pessoa que foi a casa de um familiar meu e disse que eu por me estar a assumir com as cores do CDS-PP nunca ia ter sucesso, nem vingar a nível profissional em Oliveira. Estou aqui por mim, pelas minhas convicções e por aquilo que sei que posso e vou fazer. Tenho uma equipa forte ao meu lado. E é também para mostrar a essas pessoas que nós temos direito de ter ideias próprias.

Que propostas concretas tem para os jovens oliveirenses?

Temos um projecto dinâmico que prevê, por exemplo, colóquios mensais sobre temas da sociedade. Com convidados para as diversas temáticas. Desde a saúde, a política, o ambiente ou o desporto. E temos bandeiras de que não vamos abdicar. A biblioteca, só para lhe dar um exemplo concreto, tem sido uma das nossas lutas e vai continuar a ser. Defendemos um horário mais alargado, principalmente em tempo de exames. Será uma forma de permitir aos alunos da ESTGOH, e de outros estabelecimentos de ensino, um espaço de estudo condigno. E também para os nossos conterrâneos que vêm passar o fim-de-semana possam usufruir do espaço. Outro dos problemas que afecta os jovens prende-se com a cultura. Há cultura em Oliveira do Hospital? A ESTGOH queria realizar um festival de tunas e não se concretiza porque não têm onde as acolher. Como é que a Casa da Cultura está estes anos todos em obras? É uma vergonha. Ninguém se indigna? O agora deputado e o presidente da Câmara não se envergonham? Deviam. Mas estes são apenas dois exemplos de muitos.

Como é que se poderiam ultrapassar estes problemas?

Precisamos de uma mudança. De um efectivo investimento nos territórios de baixa densidade. É muito mau quando vemos o interior a ser desprezado e os autarcas e deputados que elegemos a optarem por um silêncio ensurdecedor. Os políticos que elegemos para nos representarem, e que deveriam procurar salvaguardar os nossos interesses, não reivindicam nada. Isso é inacreditável. As pessoas precisam de ter consciência que devem ser mais exigentes com os políticos e que no dia do voto devem escolher os candidatos por aquilo que fizeram e não por aquilo que prometem fazer. O interior precisa de ter voz. Não de alguém que vá para o Parlamento bater palmas.

O CDS-PP tem futuro?

Tem. E terá enquanto houver jovens, esperança e valores.

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